sexta-feira, 2 de outubro de 2015

PÉ FRIO?!


Voando para perder dois gols...

Meus amigos e companheiros de trabalho no terminal rodoviário de Divinópolis passaram estas três semanas de intervalo entre uma viagem e outra, batendo na tecla de que os problemas do Cruzeiro neste começo de campeonato era por causa de minha presença nos jogos. O assunto de que eu era “pé frio” já soava com naturalidade, principalmente após a vitória em Sete Lagoas diante do Coritiba, por conta de eu não ter ido lá. Alguns até me perguntavam se eu tinha certeza que iria voltar ao Rio para ver o jogo contra o Vasco.
       
  Eu sempre respondia positivamente, cravando a minha presença. O Cruzeiro não começou bem aquele campeonato de 2011, já haviam sido disputados 6 jogos, com a primeira vitória saindo apenas no quinto, contra o Coritiba. Três empates, diante de Palmeiras, Santos e América em casa. E duas derrotas, ambas fora de casa, contra Figueirense e Fluminense, com a presença de minha pessoa exatamente nas duas derrotas. Na semana do jogo, o assunto ficou ainda mais intenso e a insistência para que não fosse, foi tomando conta de cada conversa comigo. De tanto ouvir isso, arrisquei dizer, que mesmo sabendo o quão era difícil conseguir uma vitória em São Januário, que iria para trazer os três pontos. Riram de mim mais um bocado, mas me mantive firme em minha previsão, torcendo para que o Cruzeiro me ajudasse nessa.
Era o primeiro jogo num meio de semana que iria assistir in loco. Quarta-feira, 29 de junho. Com ele mais uma ansiedade. Não trabalhei neste dia. Dormi bem e por volta de 11 horas da manhã parti de carro para Belo Horizonte. Desta vez não iria de ônibus para o Rio, aproveitei uma promoção aérea da Webjet que havia bilhetes de BH para o Rio a R$ 49,90.
Resolvi aproveitar para fazer um trajeto diferente. Só estava meio ressabiado quanto a viajar por esta empresa, devido a alguns relatos sobre a qualidade de suas aeronaves. Sem hesitar em tentar provar aos meus amigos de que o problema não era minha presença lá, fui sem medo. Cheguei à rodoviária de BH por volta de 12:45. Deixei o carro, mais uma vez, no estacionamento coberto e dirigi-me ao guichê da Unir comprar minha passagem para Confins. Isso feito, parti as 13:00 para o aeroporto. Uma hora depois, já estava no Aeroporto Internacional Tancredo Neves, conhecido como Aeroporto de Confins. Já estive ali algumas poucas vezes, mas é sempre bom voltar a um lugar que você sempre ouve falar e tem poucas chances de ir. Assim que cheguei, logo fui fazer o check-in. Filas são normais no momento desta conferência e ao me apresentar no balcão de informações da empresa para saber como proceder após ter comprado a passagem pela internet, sou informado que, por conta de estar só com bagagem de mão, poderia fazer esta conferência eletronicamente, através de um totem instalado logo ao lado, sem enfrentar a tradicional fila.
Praticidade impressionante, em menos de 5 minutos estava tudo pronto para meu embarque às 15:30. Não eram nem 14:30 e já estava só no aguardo do embarque. Para passar o tempo, andei o terminal inteiro. Observei os enormes painéis que informavam chegadas e partidas, subi e desci escadas rolantes e rampas, sentei e ouvi música, tomei um sorvete... Até eu me lembrar de um lugar que, quando fui pela primeira vez lá, aos 12 anos com a escola, ficou marcado em minha memória: o terraço panorâmico do aeroporto. Logo, fui verificar se ainda havia este espaço. Ao lado de um dos portões de embarque, vi a placa indicando o local.
Terraço Panorâmico - Confins
Subi alguns degraus e me surpreendi com as melhoras do lugar. (FOTO) Antes não havia a parede de vidro que há hoje, onde se avistam os pousos e as decolagens. Da vez que fui com a escola, só havia um para-peito, onde todos se debruçavam para ver e, principalmente ouvir, aqueles gigantes do ar. Lembro-me do quanto era quase ensurdecedor o barulho das turbinas. Hoje, há uma parede de vidro acima do mesmo para-peito e a área também está coberta, antes era aberta. Fiquei ali, admirado com a beleza que ficou após a reforma. Colei logo no vidro para ver os aviões manobrando na pista, descendo e subindo. O barulho foi bem amenizado com a colocação do vidro, mas o lugar continua me fascinando.
Fiquei ali por um bom tempo, tanto que me esqueci do embarque. Diferentemente do ônibus, teria de me apresentar com no máximo com 10 minutos de antecedência para que sejam dados todos os avisos antes de começar as manobras para a decolagem. Fui sossegado para o primeiro portão de embarque. Passei pelo detector de metal e direcionei-me ao segundo portão que dá para o avião. Andei, andei e não encontrei este último. Já eram 15:25, quando encontrei um funcionário da Webjet que me orientou, meio com cara de “isso são horas? Já era pra você estar lá dentro!”. Tive que correr pelo corredor de acesso ao avião para não perdê-lo de bobeira. Quando entrei, parecia que eu era o culpado de um crime, todos me olhando torto e as tripulantes já dando os avisos de segurança.
Acomodei-me e rapidamente já começamos a nos mover pela pista. Para mim, a melhor parte de uma viagem aérea é ainda em terra. Paramos na cabeceira da pista e pegamos uma velocidade alucinante! Adoro ficar grudado na janelinha para ver tudo lá fora passando como um foguete! Pena que dura segundos, mas é o mais legal. Mal começamos a subir e já surgiu a bela vista de Belo Horizonte, do alto. Fizemos uma curva à direita próxima a Serra do Curral, bem bacana!
Mares de Morro
Daí em diante, não há muita graça em voar. É tudo tão tranquilo, que parece que estamos parados. Observei o porquê de Minas ter o seu relevo chamado de “Mares de Morros”.(FOTO) Da janela só se via montanhas. Cidades, pareciam pequenos formigueiros na imensidão do território mineiro. Rápido e “rasteiro”, com 35 minutos de viagem, já começávamos a ver a maravilhosa vista aérea do Rio de Janeiro. O procedimento de descida foi feito e em menos de 5 minutos pousamos no Aeroporto Santos Dumont, bem perto do centro do Rio, à beira da Baía de Guanabara. Um desembarque tranquilo. As 16:30 já estava transitando pelo saguão. Comprei algo para comer e fiquei por ali, o jogo era só as 19:30 em São Januário. Sentei-me num canto do saguão, observando o movimento, ouvindo uma música, ligando em casa... Foi assim até umas 17:15, quando fui encontrar um táxi que me levasse para o estádio. Só esperava não pagar tanto quanto foi para ir ao Engenhão.
Facilmente consegui um táxi e mais uma vez com a sorte de ser um taxista simpático e que gosta de futebol. Descubro que ele é flamenguista, logo o associo ao Cruzeiro por conta da rivalidade. Ele prontamente diz que é mineiro desde criancinha. Pegamos um trânsito bem lento na Avenida Presidente Vargas, um dos principais corredores rumo à região de São Januário. Ainda bem que saí do aeroporto com tempo, aproveitamos para conversar sobre os times cariocas. Sabendo que Ronaldo Fenômeno jogou no Cruzeiro em seu começo de carreira, ele me mostra o campo do São Cristóvão, time carioca onde Ronaldo deu seus primeiros passos com a bola no pé. (FOTO)
              Não demorou muito, uns 10 minutos depois de passarmos por São Cristóvão, começo a perceber as características já contadas a mim antes, sobre os arredores do estádio do Vasco. As ruas se estreitam de repente, viram quase vielas. A região de São Januário é considerada uma das mais perigosas do Rio, rodeada de favelas e pessoas nada amistosas. Felizmente, o nobre taxista me deixou em frente à bilheteria e ao portão da torcida visitante. Não precisei andar quase nada, só atravessei a rua. Ainda faltava mais de uma hora para o início do jogo, mas eu prefiro e gosto de chegar bem antes para garantir um bom lugar. Um precinho também camarada do ingresso desse jogo: R$ 20. Comprei e logo entrei.
Local onde ficou a torcida cruzeirense
Ficamos no canto esquerdo do estádio, já que ele não possui a parte atrás do gol à esquerda. Alguns torcedores celestes já marcavam presença, colocando faixas e balões azuis e brancos para dar um ar mais personalizado ao nosso cantão. Sentei-me esperando por um bom jogo e, principalmente, a vitória. Nisso comecei a reparar melhor nesse estádio.Ele é bem tradicional, mas estava mal cuidado, praticamente caindo aos pedaços. A única coisa que considerei, foi a estátua feita ao Romário pelo seu milésimo gol, lá marcado. São Januário já não tem a mínima condição de receber grandes jogos, principalmente nas questões estrutural e geográfica. Quando ainda reparava na feiúra do estádio do Vasco, um rapaz que acabei esquecendo o nome, mas que foi bem receptivo, chegou perto de mim e começou a puxar papo. Só sei que ele se parece muito com o Lúcio de Castro, jornalista carioca que trabalhou na ESPN e no SPORTV.
Lúcio de Castro - jornalista
Um papo agradável. Ele dizia ser mineiro, mas que estava estudando no Rio e que toda vez que o Cruzeiro joga lá, ele ia assistir. Daí contei a ele sobre minha pretensão em “seguir” o time nos jogos fora de casa, ele se impressionou e me parabenizou pela iniciativa. Ele ficou ali comigo o jogo todo. Hora de começar o jogo, festa ao Cruzeiro quando entrou em campo e ovação ao novo técnico: Joel Santana. Todos ali gritavam: “Papai Joel!” e ele retribuindo com acenos. Comentei com o colega recém-conhecido, que estava achando estranho a Máfia Azul não ter chegado ainda. Eu até preferiria assistir o jogo sem eles. Claro que, são eles que animam e cantam, mas são bagunceiros e caçam confusões por qualquer motivo. Bola em jogo e com quase 10 minutos de partida, a torcida organizada celeste chega. Com seu “auê” de sempre, não demora muito para que eu e o camarada nos desloquemos para um canto mais afastado deles. Um primeiro tempo equilibrado com um predomínio um pouco maior para o Vasco. Poucas chances para os dois lados e o intervalo chega com um 0 a 0 no placar. Durante o intervalo, estava bem conversando com o camarada, quando percebo o
câmera-man do Premiere, canal pay-per-view que transmitia o jogo, nos focalizando. Faço um sinal de positivo, estico a bandeira e cutuco o camarada que nem percebia... Posteriormente descobriria que alguns em Divinópolis viram a cena. Metade do jogo foi embora e ainda pensava naquela primeira vitória fora dos domínios para chegar por cima no dia seguinte em Divinópolis.
Segundo tempo começou com o Vasco a todo vapor em cima do Cruzeiro. Fábio pegando bem, a zaga bem postada e mesmo assim o Vasco chegava com bastante perigo. O Cruzeiro ainda não havia oferecido perigo na segunda etapa, fazendo com que eu pensasse na derrota novamente. Para eu não ficar pensando muito nisso, comecei a tirar fotos e gravar o vídeo que fazia em todos os estádios que havia ido. E nessa de gravar o vídeo, pintou um escanteio para o Cruzeiro do lado direito.
Eu ali focado no canto da Máfia Azul, surge um cruzamento perfeito, na cabeça do Leandro Guerreiro e... (FOTOS)
GOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLL!        Vibramos muito e só depois fui perceber que ainda gravava toda a nossa vibração na hora do gol. Cruzeiro 1 a 0, na hora em que menos esperava que isso fosse acontecer.
Blogueiro vibrando com o gol
Feliz, mas ainda preocupado com um possível empate ou até virada cruz-maltina. Vasco encurralou de vez o Cruzeiro e passou a perder inúmeras chances. No meio dessa pressão, o camarada que conheci alertou sobre algo que ainda não tinha me atentado para aquele dia. Torcedores que não são torcedores de verdade, de Cruzeiro e Vasco, não se bicam e a polícia costuma deixar a torcida visitante por mais de uma hora além do jogo para evitar confrontos. E dessa vez eu não podia ficar esse tempo todo ali, senão perderia o ônibus de volta e dificilmente acharia táxi para sair daquele lugar. O camarada aconselhou a sairmos do estádio antes do jogo acabar. Que sofrimento!
Não tive escolha. Os caras vivem lá e sabem das coisas, eu não iria ser contra. O Vasco pressionava muito. Quando aos 40 minutos, ele me pergunta se eu iria embora também, porque ele estava indo. Não hesitei, fui caminhando. Desci as arquibancadas sem tirar o olho do campo. Nisso, liguei meu MP4 em uma rádio para pelo menos ouvir este final sofrido. Saímos do estádio e por sorte havia três táxis exatamente em frente ao nosso portão. Despeço-me do camarada, que seguiria para Copacabana. Eu segui para a rodoviária num outro táxi. Ainda muito aflito, ouvia atentamente o restante do jogo, sem trocar uma palavra com o taxista. Pouco depois de sairmos de perto do estádio, ouço o golaço do Montillo narrado com pouca ênfase pela rádio carioca. Quase não acreditei, diante de toda a pressão que o Vasco fazia. Vibrei muito dentro do táxi, mesmo sem saber se o taxista era vascaíno ou não, afinal ele mal abriu a boca.
Além de mal falar, quase nos botou numa situação delicada. Na correria que ele estava na Avenida Brasil, certa hora ele queria ultrapassar um carro que não cedeu. Mesmo assim, ele continuou forçando pela esquerda, até que surge um canteiro de concreto para dividir a pista. (FOTO) Ele forçou até o último segundo.
Entroncamento do quase acidente
Achei que íamos bater nesse canteiro, quando ele freou bruscamente a ponto de cantar pneu e deixou o carro que ele queria passar ir embora. Ele xingou o outro motorista, eu só respirei fundo. Pouco depois disso, sai um pênalti a favor do Cruzeiro. Mas depois desse susto, não tinha mais forças para comemorar. Roger cobrou e fez 3 a 0 Cruzeiro, no exato momento em que chegamos à rodoviária. Nem quis comemorar, só paguei a corrida e saí o mais rápido possível daquele carro. No fim das contas, perdi dois gols. Mas estava super satisfeito pela vitória que prometi e estava levando de volta para Divinópolis. Cheguei até com tempo à rodoviária. Troquei de roupa, pus o meu uniforme. Ainda andei um pouco e comi algo antes de descer para a plataforma. Mais uma vez eu voltava com o pessoal da Cometa no horário de 22:30.
Não tive nenhum problema novamente, os companheiros foram simpáticos e voltei à BH novamente num “Dinossauro”. Dessa vez, vi pouca coisa do caminho. Não sei se pelo cansaço do dia ou pelo susto final, acabei dormindo durante quase todo o caminho. Raramente isso acontece, mas quando acordei, já estava chegando a BH às 4 da manhã. Peguei meu carro, torcendo para que a pane do sistema deles se repetisse. Mas isso não aconteceu, pelo menos estava preparado. Quase 6 da manhã, já estava em casa. À tarde, segui para meu trabalho e zoei quem me chamou de “pé frio”.
Seria a redenção? O Cruzeiro engrenaria no campeonato? Sei que esta vitória tirou um grito entalado em minha garganta... Continuem ligados, que a saga está só começando. Muita história vem nas próximas viagens. São Paulo chegaria em breve!

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