segunda-feira, 21 de março de 2016

UM GOL CEGO


A arte se perder um belo gol por conta de bobagem

Duas semanas após o fiasco daquele jogo contra o São Paulo, onde o futebol do Cruzeiro ficou a quem da camisa histórica que vestia, voltava a capital paulista para entrar num “ninho de cobras”, ou de gaviões. A torcida do Corinthians não é nenhuma “flor que se cheire”, mas nem passava pela minha cabeça deixar de ir por este motivo.
Os planos já estavam praticamente traçados. Já que era quase o mesmo caminho para o Morumbi, só que sem o ônibus. No meio da semana, recebi um convite inesperado que me motivou ainda mais para esta partida.
Um amigo de infância, que não via há um bom tempo, esteve de passagem por Divinópolis e quando voltava para São Paulo, nos reencontramos na rodoviária. Com tamanho entusiasmo contei-lhe sobre meus planos. O amigo em questão era o Tó, apelido de infância, seu nome é Antônio Sérgio.(foto)
Craque Tó. Brother do blogueiro
Mesmo sendo atleticano, soube compartilhar de minha alegria e me convidou para conhecer sua casa e os atrativos que Sampa tem, os quais ele enfatizava como se fosse de outro mundo. Claro que topei e fiquei ainda mais ansioso para a viagem.
Não tinha nem que planejar o caminho, como fazia nas viagens anteriores. O caminho para o Pacaembu era quase o mesmo para o Morumbi, sem os 40 minutos de ônibus. O domingo chegou e mais uma madrugada a todo vapor para Belo Horizonte. A viagem mais rápida que já fiz para a capital, quase ninguém na MG-050 e alguns poucos nas BRs 262 e 381. Uma hora e quinze minutos, esse foi o exato tempo que fiz este percurso que nos tempos de hoje, é quase impossível de se fazer em quaisquer outros horários. Carro no estacionamento da empresa e lá fui eu achar um ônibus qualquer da Gontijo que estivesse de passagem, para seguir novamente à capital paulista.
Nesse meio tempo reencontrei o Daniel, aquele mesmo que estava em Ribeirão Preto quando na primeira viagem, quase perdi minha mochila. Fiquei muito satisfeito em revê-lo e vi que foi recíproco. Mais uma vez o agradeci pelo empenho daquele dia e que ele se tornou importante para que tudo aquilo se realizasse. Logo já imaginava que eu estava ali tão cedo por algum motivo e me perguntou se eu continuava minha planejada saga. Respondi positivamente, disse que estava indo para São Paulo ver o jogo contra o Corinthians e que precisava de algum ônibus por aquele momento descendo para lá. Me respondeu apontando para um motorista da São Geraldo que chegava no setor de tráfego do ponto de apoio. Este assumiria em BH, o carro que vinha de Mossoró – RN e ao saber que queria ir para São Paulo, não negou a carona. Ficamos nesse papo por mais uns dez minutos, quando venceu o prazo de intervalo do carro. Despedi-me do Daniel que me provocou. Pediu para eu esquentar o pé e trazer uma vitória. E assim, com mais esta “pressão”, embarquei no Mossoró x São Paulo.(foto)
Ônibus modelo Jumbuss que me levou a São Paulo
Quase amanhecendo, partimos. Não havia mais lugar na janela, geralmente essas linhas oriundas do Nordeste vão cheias e desta vez não foi diferente. Sentei-me ao lado de um rapaz no meio do ônibus. Puxei os fones de ouvido e tentei cochilar nesta primeira parte da viagem até Perdões. Mais uma vez fui impedido, desta vez por um rapaz que a principio estava sentado mais a frente. O cara falava tanto e tão alto, que mesmo com a música mais alta nos meus ouvidos, a sua incrível voz chegava à minha mente. Bom, como o restante do pessoal já estava há mais de trinta horas no ônibus, pareciam estar acostumados e conformados com ele. De tão acostumados, colocaram um apelido nele: “Periquito”. Fácil saber o por que... No fim das contas, desisti da música e entrei na onda das brincadeiras e frases sem nexo do Periquito, que me pareceu estar meio alterado alcoolicamente. Contava altas histórias dele e de seus familiares do Nordeste, envolvendo um a um no ônibus. A vantagem é que deu a sensação de que a viagem rendia e sem perceber, chegamos a Perdões. Nem desci, aproveitei para ficar um pouquinho sem o tagarela do Nordeste. Tudo que é bom, dura pouco. Todos a postos, menos o Periquito. Hora do pessoal começar a xingar, por conta de um provável atraso na chegada a São Paulo. Pouco tempo depois, eis que aparece a peça. Com um sorrisão no rosto, ele nem imaginava o tanto que a maioria do pessoal estava nervoso com todo aquele atraso. Porém, do nada toda essa revolta se foi por água a baixo. O vimos lá no começo do ônibus, com uns saquinhos a mão, distribuindo balas a todos do ônibus, sem exceção. Até eu e o motorista que em tese não fazíamos parte daquilo que ele vivia com os demais desde o sertão, entramos na brincadeira de “São Cosme e Damião” que fazia ali. Todos adocicados, continuávamos a desbravar a rodovia Fernão Dias, rumo a parada do almoço dali há três horas em Camanducaia.
E quem disse que o Periquito parou de contar seus papos? Que nada, ia de um lado para o outro no ônibus, inquieto e falante. Até achar o rapaz que estava ao meu lado, chamando-o de “Pau-dos-Ferros” (referindo-se à cidade de origem daquele rapaz). Sentou-se na poltrona a minha frente e de joelhos virou-se para trás, começando uma conversa maluca com este rapaz que mal falava, só ouvia meio assustado o repertório de histórias do Periquito. Segundo ele, Pau-dos-Ferros–RN (foto) tem uma importância muito grande em sua vida, por ser a cidade-natal do amor de sua vida...
Praça matriz da cidade potiguar citada
E assim ele começou uma longa, e muitas vezes confusa história que perdurou quase duas horas. Não dei conta de aguentar, pus novamente os fones, mesmo sabendo que seria em vão. As músicas, junto da voz do Periquito formaram uma melodia tão branda que acabei cochilando. Pouco antes da próxima parada, acordei assustado, exatamente com o Periquito. Aparentemente havia finalizado suas histórias de Pau-de-Ferros, passando como uma bala pelo corredor, esbarrando em meu braço. O cara estava alterado, mas parecia uma criança. E nessas andanças, um dos passageiros o para e pergunta sobre seu nome. Todo o ônibus virou-se em atenção para este importante ponto que ninguém havia tido coragem e ousadia de perguntar. Todos em silêncio. Fiz questão de tirar os fones e me ligar nessa. Ao longo de todo este trecho que eu estava no ônibus, não tinha visto o Periquito murchar tanto. E não era para menos, ele estava todo encabulado de falar sobre esse assunto. Tentou despistar, desviando para outros papos, mas acabou não resistindo a pressão da maioria e começou a destrinchar a história do seu nome. Segundo ele, sua mãe queria lhe colocar um nome tipicamente nordestino, mas diferente dos tradicionais. Continuou contando que sofria inúmeras gozações na escola e em qualquer outro lugar que fosse, por causa de seu nome nada normal. Ainda complementou dizendo que até então, havia conseguido a proeza de encontrar apenas uma pessoa com o mesmo nome dele, era um senhor de 70 e poucos anos, lá de São Bernardo do Campo, onde ele morava. A ansiedade e curiosidade já tomava conta de todos, por mais que ele tentasse enrolar, não escaparia da resposta. Já estávamos chegando à parada do almoço em Camanducaia e achava que o desejo dele era que chegasse logo, para tentar fazer com que o pessoal esquecesse o assunto. Que nada, toda vez que o assunto debandava, tinha sempre alguém para lembrar que o mais importante naquele momento era saber o nome do Periquito.  Ele meio ou totalmente sem graça, começou a falar um pouco baixo, em contraste com toda a viagem. Uns caras lá no fundo começaram a reclamar que não estavam ouvindo, que queriam saber desta parte importante da viagem. Aí, o Periquito resolveu desabafar: “Estava tão satisfeito que vocês tinham inventado esse apelido para mim que achei que ia passar ileso sobre isto até São Paulo. Como foi inevitável, acabaremos logo com esse suspense”. Acho que nesse momento até o motorista deveria participar, mas era o único, devido a separação da cabine, a ficar de fora desse momento. Eis que a declaração sai mais naturalmente que pipoca pulando do fogo. “Pessoal, eu me chamo ELESBÃO!” Disse em alto e bom som para que todos ouvissem claramente apenas uma vez. Um silêncio brutal tomou conta daquele ônibus, por mais que isso fosse motivo para altas risadas e zoeiras. Esse silêncio foi quebrado pelo próprio Periquito, que voltou às suas maluquices enquanto alguns esboçavam cochichar sobre a “cereja do bolo” daquela viagem. E assim, chegamos a Camanducaia para almoçar.
Não é de agora que falo bem dessa parada, um lugar muito gostoso, agradável e com uma ótima comida. Meia hora depois, todos empanturrados, seguimos para a parte final da viagem, que até ali já tinha valido por três.  Pela primeira vez consigo ouvir o barulho lindo do motor Scania daquele ônibus. Um silêncio monumental que fez muita gente tirar aquele cochilo básico após o almoço de domingo. Creio que isto permaneceu por uma hora, das duas que restavam. E quem foi o responsável por acordar o povo? Sim, o Periquito, ou Elesbão! Acho que ele pensava que tinha dormido mais de oito horas, pois acordou de seu raro soninho num pique ainda maior. Quando a megalópole paulista surgiu no horizonte, ele ficou todo empolgado. Cantando em verso e prosa sua admiração por São Paulo, fazendo com que todos olhassem pela janela a bela vista que tínhamos a partir da descida da Serra da Cantareira. (foto)
Chegada a Sampa
Aos poucos todos foram se preparando para a chegada, como se fosse o melhor lugar do mundo e para eles era, em vista do que vivenciavam em terras nordestinas.
Quase uma hora de descida e com o aumentar do transito, já respirávamos ares paulistanos. Pouco antes da chegada ao Terminal do Tietê, uma surpresa muito agradável e até emocionante: Periquito fez questão de ir de banco em banco cumprimentar e agradecer a cada um pela paciência e companhia na longa viagem.
Duas e quinze da tarde, “aportávamos” no Tietê. Cada um tomou o seu destino, seja reencontrar familiares, começar uma nova vida ou apenas assistir a um jogo de futebol. Já me sentia em casa, andava pela rodoviária como se fosse Divinópolis. Não demorei muito a ir para o metrô, desta vez não precisava da “peregrinação” que fiz para chegar ao Morumbi. O Pacaembu é bem central e em torno de meia hora já estaria no mais tradicional estádio paulistano. Mesmo sendo um domingo, rapidamente o metrô passou e lá fui eu em mais uma aventura para ver o Cruzeiro jogar. Aos poucos fui percebendo o vagão em que estava se encher de “gaviões”. Pelo jeito, teríamos casa cheia. Ainda bem que estava a paisano, a fama de encrenqueiros que os Corintianos tinham, fazia com que eu ficasse um pouco preocupado.
Tudo nos conformes e após uma escala na estação Paraiso, cheguei à estação Clinicas, onde desembarquei e pude ter um pouco de noção do quão numerosa e fanática é a torcida do Corinthians. Ao sair da estação, ainda a uma hora do começo do jogo, um mar de gente, vestidos de preto, seguiu como uma procissão, rumo ao estádio que estava perto dali. Não tinha escolha, me infiltrei em meio aos “maloqueiros” e caminhei ao estádio.(foto)
Galera do Corinthians rumo ao campo
Sem que eles percebessem, destoei ao virar a esquerda numa rua que daria até o portão dos visitantes. Já entre a galera celeste, não tive dificuldades em comprar meu ingresso e de imediato fui ao portão. Diferentemente de outros lugares que fui, o segurança fez uma minuciosa revista em mim e em minha mochila. Retirou tudo que havia ali, conferiu que não havia nada além de meu uniforme, e deixou que eu me virasse para colocar tudo de volta. Coloquei cuidadosamente no lugar para não passar a vergonha de voltar com o uniforme amassado. Enfim, misturei-me à “China Azul” no Paulo Machado de Carvalho.
Aos poucos, tanto nós cruzeirenses, quanto os corintianos começávamos a encher o estádio, dando inicio a uma festa que em pouquíssimos lugares havia visto. Ficamos num canto da arquibancada, próximos ao “tobogan”, famosa parte do estádio que fica atrás de um dos gols onde ficávamos zoando os corintianos o tempo todo. Acomodado e um pouco distante da organizada, como de costume, comecei a cantar junto, até que chegasse a hora da bola rolar.(fotos)



Clima do estádio no dia. O blogueiro em destaque ligado no jogo

Times em campo, festa armada e casa cheia. Saudamos nosso time que veio com seu tradicional azul celeste no uniforme. Primeiro tempo movimentado com uma leve superioridade do Corinthians, que criou algumas chances perigosas. A única oportunidade do Cruzeiro foi com o péssimo lateral direito Vitor que chutou em cima do goleiro Renan, que estreava pelo Timão. Ele ainda nos traria alegrias... Diante de todos os lances dessa primeira etapa, um me chamou a atenção e não foi dentro de campo. Uma equipe do Pânico na TV estava infiltrada em nossa torcida. Percebi o Carioca, um dos integrantes desse programa humorístico, disfarçado de Samuel Rosa, vocalista do Skank e um dos mais ilustres torcedores do Cruzeiro. (vídeo Reportagem Pânico) Se fosse só ele ainda estaria tudo bem, mas havia uma movimentação maior da galera da organizada em ficar atrás dele. Havia um algo mais. E que algo! Mesmo na minha, consegui perceber que o Carioca estava bem acompanhado. Uma paniquete das mais gostosas estava ao seu lado e atraia os olhares de todos, principalmente esses que estavam bem perto. Uma loiraça daquelas bem potrancudas! Estava usando um shortinho bem cavado para delírio da homaiada. Juro que mesmo vendo de não tão perto, fiquei impressionado com tamanho atributo. Agora não me pergunte o nome dela...(foto)
Carioca e sua assistente
Veio a segunda etapa e os olhares se revezavam entre a galera da bola e a semi-despida moça. O Cruzeiro tentava fazer frente ao Corinthians que partiu pra cima tentando a vitória no embalo de sua torcida. O time paulista estava invicto em casa e liderava aquele Brasileiro. No intervalo entre um lance e outro, tento tirar fotos. Saco a câmera e consigo tirar algumas. Mas na hora de gravar o rotineiro vídeo dos estádios, a câmera começa a dar problemas e não age de acordo com os comandos. Futrico, reinicio, tiro bateria, aperto daqui e dali. Tudo isso de cabeça baixa, sem olhar pro jogo e... GOOOOOOOOOOOOOLLLLLLL!!!!! Não vi. Escutei os gritos e fui na onda. Nem sabia quem tinha feito e nem como surgiu. Tive que perguntar um rapaz que estava atrás de mim. O Cruzeiro fazia 1 x 0 no temido Corinthians com um belo gol de Wallison de fora da área encobrindo o estreante goleiro corinthiano. (foto)
Wallison. Autor da proeza
Pelo menos foi o que me descreveu o companheiro. Só veria pela TV no dia seguinte em casa... A partir daí, o sufoco foi inevitável. Fábio salvava ali atrás as chances do time adversário e nós nos contra-ataques. Após uma falta besta no meio campo, nosso lateral Gilberto foi expulso, deixando-nos com um a menos e tomando inúmeros sufocos na defesa. Mas seguramos a vitória! Na raça, no sufoco e até na sorte. Nossa numerosa torcida em São Paulo, em torno de duas mil pessoas, estava feliz da vida. Cantarolamos e zoamos um monte a torcida deles que saía do “tobogan”.
Esperamos um tempo até sermos liberados. Tirei minha camisa e voltei a ser um mero cara no meio daquela multidão de volta pra casa. Mais a frente do portão onde saímos, volto a me misturar aos “maloqueiros”. Todo cuidado era pouco, ainda mais depois de uma derrota dessa. A todo momento olhava a minha volta tentando antever algo. Até a entrada da estação do metrô estava indo bem. No afunilamento para descer as escadas, vejo um pouco mais a minha frente um pequeno tumulto e discussão sem motivo aparente. Alguns palavrões e empurrões, a “turma do deixa disso” entrou em ação para que tudo se contornasse. Confesso que temi por algo pior aí por se tratar de uma torcida com histórico frequente em brigas até entre si. O tumulto continuava lá embaixo, agora para embarcar. Com certa dificuldade e acho que até furando fila, consegui comprar meu bilhete. O sofrimento agora era para passar na catraca. Com algumas espremidas e leves empurrões passei para a plataforma. O trem chegou e aos trancos e barrancos entro no vagão que até tinha algumas poltronas livres, mas por segurança, fui em pé próximo à porta para não perder a descida no Paraíso. Quatro estações e uns dez minutos depois, desci na estação que faria a baldeação para o outro trem para o Tietê. Pelo menos saí daquele mundo de gente de preto que tanto temia...
Esse trecho foi mais tranquilo e as 19:30 chego de volta ao Terminal do Tietê. Ponho meu uniforme e estava pronto para voltar para casa com esta bela vitória na bagagem. Não era pra ser, mas foi minha última passagem pela capital paulista naquele ano. Embarco as 20:00 no São Paulo x Água Boa-MG da própria Gontijo. Um Jumbuss modelo 15 mil, rodado, mas ainda confortável. O chofer libera minha entrada e vejo que o carro estava muito tranquilo quanto a quantidade passageiros. Vou lá pro fundo, pego uma poltrona sozinho e durmo. Lembro de pouquíssima coisa dessa viagem de volta. Nunca tinha dormido tanto e tão bem num ônibus. Vi as duas paradas mas nem arrisquei sair do lugar. 4 da manhã chego inteiro a BH. Agradeço o motorista pela carona e vou pro carro. Cheguei a Divinópolis com toda tranquilidade. Mais uma vez peguei estradas vazias e no amanhecer estava em casa.
Teria pouco tempo até a próxima viagem que seria no dia seguinte a noite. A segunda-feira de trabalho foi até mais agradável e relaxante. Aos poucos parecia que o time não decepcionaria e minha pseudo fama iria pelo ralo. Goiânia me esperava naquele meio de semana. Estava pronto para conhecer mais uma capital do nosso futebol.

                                                                                                                    

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