sexta-feira, 9 de setembro de 2016

SEM BANDEIRA, SEM GILBERTO E SEM PONTOS

Na capital modelo e de presente novo no corpo, o futebol mirrado teve seu preço

O Cruzeiro começava a querer sair dessa situação incômoda por mais que ainda não estávamos nem na metade do campeonato. O time estava no meio da tabela e o consolo era ver o “patético” na zona de rebaixamento já àquela altura.
Comemoração de um dos gols da goleada em cima do Avaí
Parecia que a contusão de Wallison, no jogo anterior a esta viagem, não afetaria o time, uma goleada por 5 a 0 em cima do Avaí dava a empolgação necessária ao confronto que viria no meio de semana contra um forte Atlético-PR em Curitiba (foto). Voltaria à Arena da Baixada após uma passagem em 2010 quando a conheci. Na oportunidade não era jogo do meu time e sim um Atlético e Fluminense, jogo que interessava diretamente ao Cruzeiro, na época, brigando pelo título.

Dia esse que literalmente infiltrei-me à torcida “Os Fanáticos” do time paranaense e tive, pela primeira vez na vida e com muita dificuldade, gritar “Atlético!”. Comprei um exemplar oficial da camisa deles e tirei foto com um dos ícones das torcidas brasileiras, a caveirona em resina (foto). A realidade em 2011 era completamente diferente dentro e fora de campo.
O blogueiro em 2010 junto ao torcedor rubro-negro do Paraná
Mais uma partida em meio de semana, só que dessa vez um pouco mais distante. A logística de um torcedor que trabalha no dia seguinte e que não pode pagar por uma passagem aérea para a volta fica sempre complicada nessas horas, mas tudo conspirava a meu favor até o momento. Perderia quarta e quinta-feira, pagando-as posteriormente para o Paulinho.
Trabalhei a parte da manhã da terça, descansei um pouco após o almoço e no fim da tarde, seguir para BH de ônibus. Às 17:25 parti para BH no 12365 (foto), que por si só já trazia boas lembranças: Foi exatamente nesse carro que fiz, em 2008, minha primeira viagem longa na vida, quando estava nas minhas primeiras férias na empresa e fui à Fortaleza-CE na companhia de minha mãe. Pilotando nesse dia estava o “Carlão 1600”, um dos motoristas mais bacanas que conheci. Ele tinha esse apelido devido à quantidade de Carlos que havia na empresa, ao seu tamanho e seu número na empresa. Sempre simpático, brincalhão e profissional naquilo que faz, passava sua energia positiva aos passageiros e também aos companheiros que encontrava. Era diferenciado!
Pouco mais de duas horas de muita conversa boa, risadas e bastidores de uma grande empresa como a Gontijo, aportamos na rodoviária de BH. Não podia perder muito tempo, pois às 20 horas saía o carro para Curitiba. Despedi-me do Carlão e atravessei para o lado de embarque do terminal. Não demorou muito e o 17215 encostou na plataforma A1. O motorista da vez era o Sidney lá do setor de Camanducaia. Não o conhecia, mas logo que o abordei, não titubeou em me responder positivamente sobre minha carona.
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Normalmente esse carro não andava muito cheio, então foi fácil arrumar um lugar lá no fundão para me acomodar. Passamos rapidamente pela agência da Praça da Cemig em Contagem (foto) para embarcar mais alguns e seguimos desbravando a BR-381. O caminho não era novidade, então resolvi tentar admirar outras coisas como o céu estrelado daquela noite. Mal havíamos andado por uma hora, eis que o ônibus para. Tento dar uma olhada pelo vidro e vejo mais veículos a nossa frente também parados em uma curva, no mínimo um acidente que bloqueara a via. Provavelmente estávamos para chegar a Itaguara quando ocorreu à interrupção. Aproveitei para ouvir música, coisa que não havia feito ainda, esperando a vontade bater para valer, afinal o trecho era longo.
Comecei ouvindo meus pop´s internacionais, mas por incrível que pareça, enjoei fácil. Acho que não devo ter ficado nem uma hora ouvindo. Ainda estávamos parados e eu precisava achar algo diferente para fazer, porque sono mesmo não tinha. Vi duas viaturas passando ao nosso lado direito pelo acostamento, uma da PRF e outra dos Bombeiros, pelo jeito o trem ali era feio. Achei uma casinha iluminada no meio da mata que estava a nossa direita, dali surgiu um carro que andava em direção à rodovia.
Fui acompanhando, pensando se ele sabia que a estrada estava bloqueada ou talvez para ajudar ou até saquear produtos caso fosse. Para fugir um pouco do marasmo liguei o MP3 de novo e me lembrei da opção “Rádio” do aparelho (foto). Era tão raro eu ouvir rádio por ele que nem lembrava. Raro devido ao desentusiasmo que tinha pelas rádios de Divinópolis. Mas ali ainda estávamos próximos à BH e poderia ter opções de qualidade àquela hora. Resolvi dar uma vasculhada antes de, com certeza, parar na Jovem Pan. Eis que acho a Montense, rádio de Santo Antônio do Monte, pegando com certa qualidade ali. Sempre admirei sua potência anunciada, com participações de ouvintes de toda região, mesmo que duvidando um pouco desse alcance. Mas estávamos de certa forma bem distantes de sua base. Mesmo espantado, parei para ouvir. Alécio Bessa, que outrora minha mãe o ouvia em casa, estava na locução de um programa de músicas românticas. Quando entrou anunciando participação por SMS, pensei: “Vou mandar pra ver no que dá. Isso se aqui der área.” Consegui. Pedi para tocar Ne-Yo e a minha preferida So Sick.
Desencanei. Ouvi sem esperar que fosse ser mencionado. Por mais que eu tivesse essa mesma música no MP3, o gostinho de ser tocada em uma emissora enquanto você a ouve é outro. Fechei os olhos e curti o que rolava. Na volta do intervalo comercial, ouço Alécio da seguinte maneira: “Estamos de volta com a mensagem do Sílvio Júnior, que diz estar a caminho de Curitiba pela BR-381 dentro de um ônibus que está parado em um congestionamento próximo a Itaguara. Ele nos ouve e pede Ne-Yo e a lindíssima So Sick (foto).
Capa do single
Ela chega agora na nossa programação. Boa viagem, Sílvio e enquanto estiver parado, continue na nossa sintonia.” Arrepiei todo! Claro que já tive essa sensação antes, mas esta foi inesperada e muito simpática da parte do locutor, que nos dias de hoje, mesmo nas rádios populares, não dão mais tanta ênfase quando pode mandar seus abraços a quem o ouve. Hoje tudo é muito dinâmico no rádio e isso, no fim, acaba sendo perda de tempo. Curti a música como na primeira vez! Fechei os olhos novamente e inevitavelmente veio-me à cabeça a Nana, apelido carinhoso da Giovanna, uma garota que tive um affair enquanto era locutor da 89FM e que, na época, me apresentou esta música, que não sai mais de minha playlist. Logo após, não aguentei o restante da programação. Estava saciado com o que tinha ouvido. Mudei para a Jovem Pan e curti a Beth fazer sua farra no microfone da “Número 1 do Brasil”. Já se passava mais de uma hora e meia ali parado, quando finalmente começamos a andar, bem devagar, é verdade, mas era um começo.
Beirávamos à meia-noite quando o trânsito começou a fluir. A essa altura, normalmente, estaríamos além de Perdões. Nada de lamentações, ainda havia tempo hábil para muita coisa rolar. Andamos devagar por quase meia hora até passar pelo motivo do engarrafamento e da paralisação. Em uma das curvas, havia um caminhão carregado de cenouras tombado, totalmente atravessado na pista. Após a remoção da carga e uma “chagada pra lá” no veículo, abriu-se a brecha necessária para a liberação de meia pista. Daí em diante, aceleração total e pouco vi até Perdões.
Chegamos à nossa primeira parada já era madrugada e o frio apertava no sul de Minas. Desci somente para esticar as pernas, já que o Crossville (foto) é a “melhor” parada que temos. Belisquei uns biscoitos, aqueles “trec-trec” feitos de farinha. Contei o ônibus para o Sidney e voltamos à estrada. O trecho seguinte fui na cabine fazendo-o companhia. Bom papo, sensato e inteligente, esse era o Sidney que conduzia tranquilamente aquela viagem. Passamos pelo trevo de Pouso Alegre onde contou que morava ali e tinha de se deslocar até Camanducaia para trabalhar, assim como o pessoal de Divinópolis que tinha de ir até BH. Tudo muito sossegado naquela noite e quase às 4 da manhã, chegávamos a parada de Camanducaia, onde trocaríamos de motorista. Sidney me agradeceu a companhia e eu retribuí, enquanto o outro motorista chegava para se aprontar no veículo. Fui apresentado ao Roni, um ruivo doidão, que já me recebera bem para o seu trecho. Como de costume não perdia nenhuma parada ali. Camanducaia, diferentemente de Perdões, dá um suporte muito bacana aos funcionários a trabalho e em deslocamento.
Satisfeito como todas as vezes que passei por ali, seguimos por mais um trecho dessa viagem. Trecho, que pra falar a verdade, quase não o vi. Perguntei ao Roni se ele importava de eu ir lá dentro até a próxima parada e ele, claro, não se importou. Passamos por São Paulo sem, ao menos, dar uma bisbilhotada à capital paulista onde estive viagens anteriores. Acordei com o dia já raiando. A próxima parada seria em Registro, mas não tinha noção se estávamos chegando lá. Percebi que a estrada era um tapete, trepidações eram mínimas. Já havia ouvido falar bem das estradas paulistas, que são enormemente pedagiadas, mas compensadas com uma qualidade muito superior às demais de nosso país. Uma hora e pouco depois passamos no trevo de Registro-SP, comecei a animar com a chegada da parada. Esta eu não conhecia e já imaginava que seria tão bem estruturada quanto à estrada. Eis que paramos no Graal Buenos Aires para o café da manhã (foto).
Uma mega estrutura, com uma qualidade e extensão que nunca havia visto ou experimentado. Não sabia como era o esquema ali, então demorei a descer e fiquei ali de fora admirando, dando aquela espreguiçada. Roni saiu do banheiro e logo me chama para ir com ele. Titubeei, fiz que não estivesse a fim de comer nada, mas o Roni percebeu que era por não conhecer o lugar e logo me desmascarou: “Larga disso. O pessoal aqui é tranquilo com os caroneiros também, pode vim sem medo e comer e beber o que quiser! É difícil achar um lugar tão estruturado e que te dê tanto suporte na estrada.” Aceitei na hora. Quando que imaginaria que comeria de graça numa das maiores redes de lanchonetes rodoviárias do país? Logo imaginei: “O Graal com o nome que tem nos recebe assim e o Crossville com aquela frescuragem!” Passava das 8 da manhã, já que recebi o “sinal verde”, caprichei no lanche, pois o próximo só seria em Curitiba.
Roni mais acostumado em estar ali, fez seu lanche mais simples, com um pastel e um café com leite. Já eu, “mandei brasa” em um enorme sanduíche de pernil e um copo enorme de laranja natural. Demorei um pouco mais que o normal, pois ainda assistíamos o noticiário matutino na TV e conversávamos. Quase meia hora depois, sendo que a parada seria de 15 minutos, voltamos ao ônibus para a etapa derradeira da viagem. Contei o carro e tudo certo para seguirmos à Curitiba. Fui na cabine novamente, agora para prosear com o estiloso Roni, que já ostentava seus óculos escuros pela Régis Bittencourt. Passamos pela Serra do Cafezal, que é o único ponto ainda não duplicado da rodovia e um dos poucos pontos não habitados do trecho, onde a mata nativa ainda é bem preservada. A partir dali o friozinho do sul já começava a soprar forte.
Vista aérea da rodovia sobre a represa
Ainda tinha chão, mas a conversa boa e principalmente a paisagem pós-serra era deslumbrante. O ponto alto foi a Represa do Capivari, umas das bases de abastecimento da capital paranaense (foto). Um espetáculo! Uma beleza! Uma joia rara! Um oásis! Linda. Apareceu do nada à nossa direita e depois se expandiu para todos os lados. A rodovia passava por cima dela e não tinha para onde fixar o olhar. E assim foi por poucos 20 minutos, mas o suficiente para deixar a viagem ainda mais exuberante. Mais uma hora de quase nada habitável no caminho, quando começávamos a notar que a região metropolitana de Curitiba surgia.
Chegando a Quatro Barras-PR, passamos por um posto da Polícia Rodoviária Federal onde uma moça nos fazia sinal à beira da estrada, bem de frente a base. Sabia que aquele carro não pegava passageiros fora de rodoviárias, olhei para o Roni e ele me tranquilizou: “Calma, é só a Carmem. Ela é agente aí nesse posto e mora em Curitiba. Já é de casa, nós que andamos no trecho já a conhecemos e damos carona a ela sempre!” Ela subiu nos cumprimentou e foi se juntar aos passageiros. Tudo na maior normalidade até chegarmos ao trevo do Atuba, um dos acessos à capital paranaense. Já passava do meio dia, quando encontramos um ônibus da Cometa parado em um posto e o motorista deles fazendo um sinal para nós. Roni diminuiu na hora e encostou no posto. O motorista deles veio até nós e explicou que estava com algum problema mecânico que não soube identificar, só sabia que o carro não desenvolvia mais. Achou um lugar seguro para parar e pedir socorro. Já havia ligado para sua garagem em Curitiba, mas não havia carro para rendê-lo ali, que teria de esperar algum vindo de São Paulo o socorrer. Que nada. Nos prontificamos a, pelo menos, ajudar os passageiros a chegar. Descemos imediatamente e passamos todos os passageiros da Cometa para nosso carro para a parte final da viagem até a rodoviária de Curitiba.
Quase uma hora ali parado. O companheiro fala mais alto neste momento, mesmo sendo de uma empresa concorrente e direta, fizemos o transbordo das bagagens, lotamos nosso ônibus e deixamos somente o motorista lá para ser socorrido. Encarregamo-nos de chegar com todos até a rodoviária. Em pouco mais de meia hora, contando com um pouco de trânsito que pegamos, chegamos à rodoviária de Curitiba (foto).
Vista aérea da rodoviária de Curitiba
Esta é muito bem localizada, centrada e funciona onde antigamente era uma das estações de trem da cidade. Uma longa e cansativa viagem. Já passava das duas da tarde de quarta-feira, era hora de descansar antes de assistir o jogo e voltar no mesmo dia! Ao descer, agradeci ao Roni e perguntei se era ele quem voltava hoje. Respondeu-me negativamente, pois o prazo mínimo para descanso é de 11 horas e quem voltaria seria o que havia chegado no dia anterior lá. Nisso chegou nossa bilheteira para efetuar o desembarque dos nossos passageiros, auxiliada pelo responsável da Cometa. Enquanto ele começava a descer as bagagens, ela aproveitava para quase “se jogar” em cima do Roni. Fui apresentado à Celcilene, que pedia para ser chamada de Celci. Não era das mais bonitas, era simpática e conversadora, mas tinha um corpo ajeitado. Mais tarde, em um capítulo posterior, se tornaria uma personagem coadjuvante dessa saga, não só de passagem como neste.
O sol brilhava forte e debaixo dele saí da rodoferroviária de Curitiba em direção ao hotel. Ficaria no mesmo hotel, bom e barato ali mesmo na rua do terminal, onde já havia me hospedado em 2010 quando estive pela primeira vez.
Hospedagem com excelente custo-benefício está aí!
Dez minutos de caminhada e já estava na recepção do Hotel Piemont (foto), onde dali, mais tarde, caminharia até a Arena da Baixada. Um quarto simples, mas muito bom para quem encarou esta distância toda. Espalho-me na cama de casal, para experimentar o colchão. Tudo certo e após um bom banho de uns 40 minutos, para literalmente tirar a “inhaca” da viagem, deito-me com a TV ligada para dormir bem tranquilo. Pus o celular para despertar para não passar direto... Já imaginou percorrer esta distância toda para nada? Ainda bem que isso não aconteceu. Às 17:30 eu acordo, foi só um cochilo de duas horas e meia, mas o suficiente para renovar minhas energias. Como uns biscoitinhos que poupei durante a viagem e às 18 horas rumo ao estádio. Vou caminhando e mais uma vez admirando o que Curitiba tem de melhor, sua estrutura.
O transporte coletivo mais eficiente do país!
Estações tubo, que são aqueles pontos de embarques dos coletivos, únicos no país, são um charme a parte. Os ônibus articulados e bi-articulados laranja têm faixas próprias para não pegar o trânsito caótico de uma capital, fazendo com que este sistema de transportes seja o mais eficiente do país. Não sei o motivo de nenhuma outra cidade ainda não ter copiado este bom exemplo. (foto)

Os arredores da Arena rubro-negra já estavam movimentados e eu, como sempre, a paisana para não causar nenhuma conturbação. Aproximei-me das bilheterias onde mais um exemplo de organização que não havia visto em lugar nenhum. Três filas comportadas, sem tumulto ou com “espertalhões” que não a respeitam e em cada uma delas um funcionário do clube para desenvolver o andamento e orientar pessoas que não tinham o costume ali, como eu. Perguntei-lhe baixinho onde comprava bilhete de visitante e na hora, me encaminhou para uma dessas.
Fachada do estádio em 2011
A Arena (foto) foi disparadamente o melhor estádio, em termos de estrutura que visitei, por isso não me importava em pagar mais caro para estar ali. Foram 60 Reais, mas uma tranquilidade e agilidade incrível para atender o torcedor, que escolhe na tela do computador o local do estádio onde assistirá ao jogo. Depois da compra, o torcedor ainda tem de passar por outro funcionário do clube que cadastra cada um que entra ao estádio, a fim de agilizar a identificação de possíveis vândalos infiltrados. Mais uma ação inteligente no sul. O sentimento era de total conforto. Após todo esse procedimento, me restava adentrar e curtir o espetáculo. O portão de entrada da torcida visitante ficava ao oposto da entrada principal, onde se encontravam as bilheterias.
Dei a volta no quarteirão e não tive dificuldades em encontrar a entrada que estava super tranquila. Faltava pouco tempo para a bola rolar e eu já me aprontava. Com o agasalho devidamente colocado no corpo e bandeira em mãos, passo pela tradicional revista dos policiais e caminho para a roleta, onde tenho uma pequena surpresa desagradável. Apresentei meu ingresso e me perguntaram o que tinha dentro daquela sacola que carregava. Respondi que era minha bandeira sem mastro, pois sabia da proibição desse acessório nos estádios após inúmeras confusões. Logo me disseram que no Paraná não era permitido entrar com nenhum tipo de bandeira mais, seja com ou sem mastro. Questionei o motivo já que era somente um pano, que não havia nenhum material cortante ou perfurante ali, mas foram irredutíveis e tive de aceitar as imposições. O jogo estava para começar e estava na dúvida de como entraria sem minha bandeira, onde a deixaria em segurança. A própria moça, que parecia ser alguma encarregada da segurança naquele setor me ofereceu para guardá-la até que a partida terminasse. Foi um alívio e assim, entrei pela primeira vez na parte de visitantes da Arena. Essa parte onde fica a torcida visitante é oposta às cabines e bem ao lado da antiga escola que ocupava uma das áreas laterais do estádio, que naquele ano o clube conseguiu adquirir para fazer a ampliação de sua casa, principalmente pensando na Copa do Mundo de 2014.
Aquele estádio era magnífico (foto)!
No meu ponto de vista, não precisaria de tanto para servir à Copa que viria. E sem minha bandeira, que me acompanhara por todos os jogos anteriores, dirigi-me a mureta que separava a arquibancada do campo. Queria ver de bem perto os lances como não era possíveis nos demais. Escorei-me ali e permaneci por todo o tempo. Aguardei e comecei a cantar junto à nossa torcida lá, que não era das maiores, mas estavam todos animados e a princípio sem aquele povinho da organizada. Após algumas fotos, hora de futebol! Cruzeiro em campo com sua tradicional vestimenta celeste. Vieram bem perto para nos cumprimentar, daí pude ver que Gilberto não estava no time titular, lá atrás ele caminhava junto aos demais para o banco de reservas. O Atlético-PR veio logo em seguida para inflamar seu fiel torcedor, que comparecia em bom número em pleno meio de semana. O clima estava gostoso, não estava tão frio, mas dava para usar o agasalho sem problemas. Àquela altura, os termômetros deveriam estar marcando uns 16ºC com uma leve brisa.
O jogo começa e a agitação toma conta da Arena da Baixada. O Atlético era forte em casa e cabia ao Cruzeiro surpreender. Eles não tinham aquele cara que fazia a diferença, mas a boa técnica de Cléber Santana e a velocidade de Madson, poderiam ser perigosos à defesa cruzeirense. Esse time do Cruzeiro, não inspirava muita coisa, alguns lampejos de Montillo davam esperanças. Um primeiro tempo movimentado, onde o time da casa levou mais perigo e fez Fábio trabalhar bastante. Tanto que acabou fazendo 1 a 0 com Marcinho, ex-jogador do Cruzeiro e hoje um dos pilares desse Atlético, em uma cabeçada certeira. O abatimento e as más lembranças voltavam à tona. Começo a xingar os caras! Mas não deu nem tempo de terminar um dos palavrões que soltava, quando num contra-ataque rápido, vem o cruzamento e Wellington Paulista, no meio da grande área cabeceia com força para empatar logo em seguida. 1 a 1 e vibração total da parte azul do estádio.
Centroavante cruzeirense comemorando o então empate
Após o gol, Paulista veio comemorar junto a nós disparando suas flechas imaginárias e botando a mão em uma das orelhas como se quisesse ouvir os críticos naquele momento (foto). Achei que a partir dali o jogo ia esquentar e criei expectativa pela virada, mas não aconteceu. O restante da primeira etapa amornou-se e assim fomos para o intervalo. Aproveitei para sentar e descansar um pouco. Atrás de mim, uma turma resenhava sobre o que faltava para vencer lá.
E a segunda etapa começa com uma surpresa, Gilberto em campo no lugar de Roger, que mais uma vez, pouco contribuiu. Papai Joel queria mais qualidade no chamado “último passe” para poder conseguir a virada. Tentei de todas as formas mostrar ao nosso meia o quão satisfeito eu estava com aquele presente que me deu na última viagem e que cumpri a promessa de que estaria presente com ele no corpo nesta partida. Mas não foi possível. Ficamos mais próximos do campo de defesa do Cruzeiro no segundo tempo e ele pouco veio marcar. Um segundo tempo pegado, ambas as equipes estavam dispostas a vencer, até um dado e crucial momento onde o senhor Anselmo Ramon, atacante do Cruzeiro, faz uma falta besta no campo de ataque e é expulso! Quando a coisa parecia querer ficar boa, virou um drama. O Atlético “ferveu” em cima e Fábio se virava pra sua cidadela não cair. Àquela altura, o empate já era lucro e rezava para o tempo passar depressa. E assim, como no jogo contra o Vasco, tive que sair do estádio antes do término da partida devido ao horário do ônibus para a volta. O jogo acabaria por volta de 21:30 e eu teria de estar na rodoviária às 22:00 para voltar à Divinópolis. Além de ter de passar no hotel antes para pegar minha mochila e acertar a estadia. Saí às 21:10 com o jogo ainda eletrizante e com o Cruzeiro se segurando com um jogador a menos. Parecia ainda faltar uns 15 minutos para o fim, mas não tinha escolha. Tomei meu rumo em direção à saída e sem tirar o olho do campo, pelo menos até onde dava visão. Passei pela portaria novamente e solicitei a devolução de minha bandeira, que foi prontamente entregue. Agradeci à segurança que a guardou para mim e segui para fora do estádio.
Ao sair, “apertei” os passos para não perder o ônibus. E enquanto dava a volta no estádio para sair na rua que daria acesso ao hotel, próximo das bilheterias, escuto o estádio “explodir” em gritos. O pior acabara de acontecer. Tratei de colocar os fones e sintonizar em uma rádio de lá para comprovar. E realmente era aquilo que imaginava. Gol do Atlético aos 44 minutos do segundo tempo em um chute da entrada da área de Cléber Santana. Estava indo apreensivo, mas depois dessa amarga derrota no final, o sentimento virou frustração. Lá fui eu, todo cabisbaixo completar minha caminhada. Já eram 21:45 quando cheguei ao hotel, tinha de me apressar. Soquei tudo dentro da mochila e “voei” num banho de um minuto. Coloquei o uniforme às pressas, com a gravata toda torta e cabelo despenteado. Ainda bem que já tinha pedido para fechar antes para não perder tempo, foi só pagar e partir. Mesmo com a vantagem de estar perto da rodoviária, tive que dar uns piques para chegar a tempo. Exatamente às 21:58, chego à plataforma com a Celci aos berros à procura de um passageiro que faltava para embarcar. Nisso, já cheguei bufando ao companheiro motorista, que logo me pediu para subir. O ônibus estava vazio, muito tranquilo, acho que somente umas 8 pessoas iriam nessa volta.
Saguão da parada na madruga
Aproveitei que o ônibus estava com as cortinas todas fechadas e estava bem escuro para tirar aquele soninho após a saída. Não adiantou os gritos de nossa bilheteira, seguimos sem o passageiro que estava faltando. A partir daí, não vi mais nada! Um cochilo gigante até a parada do Graal Petropen em Registro-SP (foto). Desci somente para esticar as pernas, pois não sabia se liberavam o rango lá e também por não conhecer o “chofer” do ônibus que estava. Mas ele acabou me convidando a ir com ele e, claro, não rejeitei. Ele partiu para a janta mesmo, comida, às 2 da matina. Eu preferi um lanche mais reforçado. Tudo do bom e do melhor. Estávamos pronto para continuar nossa volta. Não foi difícil conferir os passageiros, a maioria não desceu. E em meio a muitos ônibus da Itapemirim, Penha e Cometa parados no mesmo restaurante que nós, seguimos pela Régis Bittencourt sentido São Paulo. Voltei a dormir. No ritmo que estava desde a saída de casa, uma hora o sono ia bater forte. De barriga cheia então, foi fácil! Uma tocada sem trancos e uma estrada maravilhosamente conservada, fizeram eu acordar somente com o sol na cara através de uma fresta entre as cortinas. O dia já raiava e já estávamos na Fernão Dias próximo à Camanducaia. Abri a cortina e fiquei contemplando as paisagens com o fone no ouvido e algumas músicas. Levamos mais de uma hora para chegar a essa parada já no sul de Minas. Mais uma vez, aproveitei bem a cortesia do lugar. Fiz meu lanche costumeiro e quando fui voltar ao ônibus, ainda tive a surpresa de ganhar do pessoal do caixa um saquinho cheio de diversas balas para adoçar o restante da viagem. O motorista era outro, mas segui sem problemas para a capital mineira.
Pouco aconteceu até BH, paramos em Perdões e não desci. Continuei lá dentro curtindo minhas músicas. Às 13:30 chegamos à “Belô”. Agradeci o companheiro pela viagem e começo a pensar em como voltar à Divinópolis, pois naquele horário não saía nenhuma empresa, a não ser a Teixeira, que nega carona, que pudesse me dar carona de volta para casa.
Carro da linha BH x Cláudio via Divinópolis
Ao pesquisar junto às bilheterias, eu tinha duas opções: esperar até as 16:00 quando saía um da Transmoreira para Cláudio (foto), ou ir no da Gontijo que saía já as 14:00 para Uberlândia, que me deixaria no trevo de Nova Serrana as 16:00 e dali tomar o Braulino para Divinópolis, chegando à rodoviária as 17:00. Não ganharia muito tempo, mas a segunda opção foi a escolhida. Melhor estar na estrada do que ficar mais de 3 horas “mofando” naquela rodoviária de BH. Carro cheio, como de costume para o Triângulo, subo e vejo que não há mais lugares na janela. Vou lá pro fundão e na última poltrona, ao lado do banheiro, acomodo-me ao lado de um gordão. O cara deu uma olhadinha despistada e tacou os enormes fones no ouvido. A bateria do meu MP3 tinha ido embora, então me contentei em curtir o trecho.
Sol forte e a maioria dos passageiros fecham as cortinas e tiram um sono. Era um ônibus modelo Marcopolo G6, mas o barulho característico de um Scania estava ali igualzinho aos demais modelos de carroceria da empresa. A parte boa de estar ali atrás era essa de curtir o motor. Em compensação, o cara do meu lado começava a ficar espaçoso demais e eu cada vez mais “enlatado” junto ao corredor. Foi mais de uma hora todo torto, encolhido e mal acomodado. Até que avisto, pelo corredor, o trevo de São Gonçalo do Pará. Era a referência que precisava para ir para a cabine e preparar-me para descer. Enfim saí daquele aperto que era a poltrona 46 e fui para a cabine.
Entrada dos Gamas, distrito de Nova Serrana
No meio do caminho, agradeci o cobrador que estava sentado ao lado de uma senhora numas das primeiras poltronas. Já na cabine peço a gentileza do motorista parar na guarita dos Gamas (foto) para mim e prontamente fui atendido. Mais uma vez agradeci e atravessei a rodovia para esperar o Braulino que não demorou muito para passar. Eles também eram “gente boa” e não me negaram a carona. Dali foi um pulo até Divinópolis, foi só sair do ar condicionado da Gontijo para o “vento na cara” da Braulino, que a nossa Divinéia já aparecia no horizonte.
Assim terminava esta “aventura” com mais uma derrota no currículo. Desânimo? Nenhum. Estava pronto para a próxima, que demoraria um pouco, daria um tempo para descansar e também para alguns imprevistos que fariam os planos de ver todos os jogos fora, que estava cumprindo até então, irem por água abaixo. O primeiro turno estava terminando, mas a luta, a angústia e principalmente o sofrimento de ver meu time na pior, estava só começando...

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