quarta-feira, 10 de agosto de 2016

UM CRAQUE AO LADO

Com meu time numa das piores fases, o futebol me dá seu maior presente.

Após duas viagens seguidas e ligeiramente desgastantes, consigo uma semana para recolocar minhas ideias em ordem e os novos planos em meta. Diante de um péssimo jogo em Goiânia, seriam inevitáveis as zoações nesse intervalo. Coisas do tipo: “Você é louco, ir nessa lonjura pra ver uma pelada daquela!” ou “O que você tem na cabeça? O time mal desse jeito, ninguém em sã consciência iria nem em Sete Lagoas!”. E lá continuava eu, firme com a ideia de não perder estas oportunidades, mesmo com a iminente briga contra o rebaixamento.
No domingo da semana seguinte, dia 7 de agosto, o desafio seria o Internacional em Porto Alegre. A capital gaúcha não era novidade, já havia estado lá e no Beira-Rio em 2010 quando fui de carro. Dessa vez iria de ônibus e refazendo boa parte do caminho que fiz na primeira rodada quando estive em Florianópolis. O trecho até Marília-SP estava garantido. O seguinte, que havia comprado passagem na vez anterior, desta resolvi arriscar uma carona.
A sexta-feira já batia à porta e não precisei me preparar tanto como nas anteriores, somente reservei o hotel e comprei minha passagem aérea para a volta, já que o Paulinho não poderia trabalhar a segunda-feira para mim. Só restava ficar na torcida para que o trecho e a carona em Marília dessem certo. E pensando exatamente nessa volta, tive que ir a tarde, de carro, para BH e pegar o ônibus para Marília lá e não aqui em Divinópolis. Deixaria-o no estacionamento da garagem para não ter problemas quanto ao horário de chegada na noite de domingo. As três da tarde, parti para BH. Com um pouco de trânsito chego bem às cinco e quinze. Sobrou um pouco de tempo para comer algo e rever alguns colegas da “Central”.
Marcopolo G6 da Gontijo que me levou até Marília-SP
As 18:00 o 17235 (foto) aporta na saída da garagem com o ilustríssimo amigo Jardel, conterrâneo motorista. Nem me viu direito e já fazia o sinal característico com uma das mãos para eu ir com ele. Aceito de imediato, começávamos ali o primeiro trecho da melhor viagem que fiz em 2011! Já na rodoviária, embarcamos alguns e as 19:30 em ponto partimos da capital. Aquele congestionamento tradicional das sextas-feiras na saída da cidade via-se de longe. Na Via Expressa em Contagem foi o ápice! Quase paramos, só voltamos a desenvolver próximo ao entroncamento com a BR-262 em Betim. Duas horas e meia até Divinópolis, onde era pra eu realmente embarcar se não fosse o imprevisto da volta. Enquanto o Jardel lanchava, minha mãe me fez uma surpresa esperando o ônibus em que eu vinha e logo que encostamos, ela estava lá na plataforma de embarque. Como fui pra BH antes de ela chegar do trabalho, só recebi seu abraço e suas bênçãos nesse momento. Quinze minutos que voaram em sua companhia e lá fomos nós: Jardel, eu e o Marcopolo G6 Scania de número 17235 rumo à esperança de mais uma vitória celeste e tentar afastar a má fase que rondava o time naquele Brasileirão.
Seguimos bem a viagem. O papo com o Jardel era excelente, assim como foi com o Dagmar da primeira viagem e o trecho transcorreu com rapidez. Em Passos, havia alguns desembarques que ajudei a fazer. Pouco depois paramos para um lanche na madrugada na ótima parada de Itaú de Minas (foto), onde encontramos o Roberto, outro motorista conhecido da linha voltando para Belo Horizonte.
Parada de Itaú de Minas-MG
Logo após, paramos rapidamente na rodoviária de São Sebastião do Paraíso para somente um rapaz descer. E de lá fomos direto a Ribeirão Preto, onde por volta das 3:30 paramos no Posto Gavião para a troca de motorista. Jardel se despedia e eu revia alguns dos motoristas que passavam por Divinópolis e que estranhavam minha presença lá. Algumas risadas com eles, pois não acreditavam que iria para Porto Alegre só pra ver o Cruzeiro jogar. Partimos novamente para o restante da viagem até Marília. Pouco vi do trecho de Ribeirão até lá, aproveitei a troca de motorista para ir a alguma poltrona vaga para tirar um cochilo, afinal foi mais uma noite em claro nesse trecho. E assim me dei conta que já estávamos parando no Posto Gigantão, quase em Marília. O motorista que assumiu em Ribeirão logo me convidou a tomar café com ele e não rejeitei. Mais uma boa parada que a empresa faz. Um pão de queijo fajuto e um copo de suco depois, voltamos ao ônibus para pouco menos de meia hora de trecho até a rodoviária de Marília, aquela do chapéu mexicano. Agradeci o companheiro pela viagem, ajudei-o ainda no desembarque do pessoal e segui para o segundo e maior trecho: de Marília a Porto Alegre. Eram apenas oito da manhã do sábado e a previsão de que o carro que iria para meu destino só passasse após as dez horas. Perambulei pela rodoviária, o guichê da Gontijo ainda estava fechado, mas essa segunda viagem faria de Real Expresso ou Itapemirim. Essas duas empresas se revezam nessa linha que vem de Brasília. Acabei descobrindo que naquele sábado seria a Itapemirim que viria.
Ainda tinha um bom tempo ocioso, vi que na TV do saguão estava passando o treino da Fórmula 1. Parei e fiquei assistindo. Daí foi um pulo até a hora de tentar conseguir esta enorme carona. 
Exemplar de um DD (Double Decker) ou dois andares que enchem a rodoviária de Marília-SP
Quando estava distraído com o ônibus dois andares da Expresso de Prata (foto) que seguia para São Paulo, eis que como um raio o “amarelinho” aparece. Eram 10:15 quando encostou na plataforma. Ali além dos embarques, trocariam de motorista. Aguardei até que fizessem a troca e os embarques para me aproximar. Não demorou muito para todos subirem e se acomodarem. Cheguei ao choffer que se chamava Sandro e o perguntei até onde ele iria e me respondeu Curitiba. Disse a ele que precisava ir até Porto Alegre, que se ele podia me levar até Curitiba e se sabia se o pessoal de lá importaria de eu continuar. Ele disse que Gontijo viaja até onde quiser com eles! Ali que minha ficha caiu quanto ao prestígio que a empresa tinha e ainda tem! Diante dessa resposta mais que positiva, já estava pronto para subir e achar um bom lugar dentro do ônibus. Do nada, aparece uma loira linda por trás das grades que separam o saguão da plataforma. Quase aos berros, me pediu para esperar, que ela iria embarcar naquele carro, que só faltava pegar as bagagens no carro. Passei a informação ao Sandro e ele aguardou. Ela voltou com três carrinhos lotados de malas, caixas e até trilhos de cortina! Espantamo-nos quando chegou com aquilo tudo e em cima da hora. Levaram-se quase dez minutos para que ajeitassem tudo isso no bagageiro e enfim a última passageira subisse. Ela agradeceu a mim e ao Sandro pela espera e seguiu para o seu lugar. Fiz o mesmo. Também agradecendo ao motorista pela carona. A vi ofegante dentro do ônibus numa poltrona do meio para o fundo na janela, lado oposto ao motorista. Encontrei um lugar na janela vago logo atrás dela e assim seguimos rumo ao sul.
 Até a parada de Santo Antônio da Platina-PR, para o almoço, foi tudo muito tranquilo, fones no ouvido e muita música para animar o caminho. Já na parada, imediatamente o Sandro veio me convidar para o almoço com ele. Perguntei sobre eu ser de outra empresa que não passa ali e o pessoal da parada achar ruim. Ele na hora retrucou dizendo que eles nunca importaram com isso. Fui e me esbaldei na farta e boa comida do lugar. Voltamos à estrada e tentava achar um meio de puxar papo com a loirinha que estava a minha frente, mas parecia que só dormia.
Posto Meneghatti no interior no Paraná
Tornei a por os fones. Mal deu 3 horas de trecho em uma ótima estrada, sem curvas fechadas ou trepidações, chegamos à parada de Carambeí-PR (foto). Já passavam das 4 da tarde e ainda não tinha fome para comer mais, o almoço ainda me sustentava. Desci e estiquei as pernas um pouco, dei uma volta pelo pátio e logo já estava próximo ao ônibus esperando pelo pessoal. Quando a loira voltou de seu lanche, veio me perguntar onde era aquele lugar para poder falar com alguém ao telefone. E assim fez até que o Sandro voltasse também. Voltamos ao carro e ao trecho até Curitiba. Nisso a noite começava a cair e a mocinha começou a conversar com um rapaz que estava na poltrona oposta a dela. Fiquei atento à conversa até que ela se virou para trás e me botou na discussão que era sobre futebol. Quem diria,  uma moça tão bonita e entendida de bola. Entrei no assunto e rendemos. Foi quando resolvemos nos apresentar. Não me lembro o nome do terceiro na conversa, mas o dela eu não esqueci... MAITÊ! Além de ser bela e boa de papo, tinha um baita nome. A conversa estava só começando e já percebia que seria muito agradável. Do nada, no cair da noite, quase chegando a Curitiba, vejo as luzes internas do ônibus piscarem. Bom, sei que quando isso acontece em carro que tem cobrador, é um chamado do motorista para ele. Mas como eu era um mero caroneiro e de outra empresa e também por não querer interromper a Maitê, acabei ignorando. Mas o Sandro abriu a porta da cabine e pediu que um dos passageiros ali da frente pudesse me chamar lá no fundo. Aí não teria como, fui imediatamente ver em que eu poderia ajudá-lo. Fui à cabine, ele pediu para fechar a porta e me disse que estava com um problema nos farois do ônibus, que com o cair da noite percebeu que só havia uma das luzes funcionando. Mostrou-me seu celular sem bateria e me perguntou se eu teria como ligar para a garagem de Curitiba para tentar solucionar o problema.
Assim feito, peguei meu celular, pedi o número a ele e fiz a ligação. Passei a ele, que mesmo ao volante falou rapidamente com um mecânico que se prontificou a ir até a rodoviária reparar o dano. Sandro me agradeceu e voltei à poltrona, deixando claro que estaria atento a qualquer chamado dele. No que chego de volta ao fundo do ônibus, o papo entre o rapaz e a Maitê rolava fácil. Fui meio cara de pau (coisa difícil de acontecer) e fui logo perguntando sobre o que eu havia perdido nesse meio tempo. Ela não fez questão de esconder e me botou na roda novamente. O assunto futebol ainda perdurava. Maitê contava exaltada sobre sua paixão pelo Corinthians e o rapaz, mais contido, dizia ser gaúcho e torcedor do Grêmio.
Vista aérea do Parque Tanguá, um dos principais pontos de Curitiba-PR
Quando disse a eles que estava naquela viagem por causa do Cruzeiro, quase caíram para trás. Pouco tempo depois chegávamos a Curitiba (foto). Nossa conversa cessa por um tempo para cada um ter o que admirar pela janela. A capital paranaense e seu charme, suas luzes e monumentos, atraíram olhares de todos ali dentro e não era para menos. Curitiba é considerada “cidade modelo” por toda essa estrutura e exuberância que oferece a seus moradores e turistas. Ao chegar à rodoviária, alguns desembarcaram e logo paramos em um pátio auxiliar. Lá estava o mecânico e o motorista que iria assumir o posto do Sandro. Desci e agradeci ao Sandro pela gentileza de me carregar. Ao mesmo tempo, me apresentava ao novo motorista que, na hora também fez questão de não me deixar ali. Ficamos quase uma hora parados, já passava das 9 da noite quando voltamos a seguir viagem. Enquanto o conserto rolava, Maitê cochilava, mas assim que o ônibus voltou à estrada, aqueles “olhões” verdes já se viravam para minha poltrona caçando o que conversar. O rumo da conversa passou a ser vida pessoal e o gaúcho quis ser o primeiro, pois disse que estava com sono e que sabia que Maitê e eu iríamos nos estender nos detalhes... Lembro-me de pouca coisa, afinal o que me interessava estava a seguir. Disse que era vendedor em uma loja do Shopping Iguatemi em Porto Alegre e que tinha ido a Goiânia visitar parentes, mas já estava voltando, pois não poderia deixar de ganhar seus R$ 3000.00 por mês para se manter no Rio Grande mais seu namorado. Sim, só ali percebemos que ele era gay. A partir daí a conversa ficou mais reservada, tanto que Maitê “pulou” para a poltrona do meu lado para não incomodar quem já estivesse dormindo. Inevitavelmente tenho que descrever aqui que foi a melhor parte da melhor viagem, pena que não passou disso. Conversamos em tom bem baixo, quase que sussurrando, olhando nos olhos, mesmo no escuro. Após ter contado um pouco do que eu tinha vivido, chegou sua vez. Em resumo disse que sempre morou em Marília e que lá conheceu seu marido, que estava recém casada e que o cara tinha ido a frente para ajeitar tudo antes de ela chegar. Tinha 20 aninhos e que aquela “tralha” toda que estava levando era de sua mudança para Floripa. Nesse ritmo fomos até a próxima parada em Garuva-SC. Ela preferiu ficar no ônibus pois aparentava fazer frio lá fora devido a forte neblina que avistávamos. Desci só para sentir o clima, mas logo o motorista me chamou para jantar com ele. Eram mais de onze e meia da noite, pensei em não aceitar devido ao horário, mas acabei indo. Mais uma boa parada onde o pessoal nos atendeu com bastante simpatia e com uma variedade de pratos formidável. Preferi não comer o tanto de costume, mas o “bifão” bovino eu não resisti e era isso que me daria a sustentação até o final.
Vinte minutos depois seguimos para mais um trecho. Maitê continuava na mesma poltrona ao meu lado e estava com cara de quem queria mais um cochilo. Em tempo, havia televisões dentro desse ônibus da Mirim, o Sandro em seu trecho, havia colocado um filme bem ruinzinho (acho que esse foi o motivo que impulsionou o começo da nossa algazarra) e depois um show que, se não engano, era da Shania Twain. De Curitiba até Garuva esse novo motorista não havia colocado nada, talvez um pedido de alguém para descansar. Mas de Garuva em diante, não perdeu mais tempo e tacou mais um filme.
Filme que garantiu minha noite
Já estava pensando em como prolongar a conversa com a Maitê para não prestar atenção em um filme que possivelmente seria tão ruim quanto o outro. Dessa vez era uma comédia e ela se interessou em ver. Casamento Grego (foto) era o nome. Não tinha escapatória, acabei vendo e fazendo parte dos comentários que ela proferia durante a exibição. Não foi de todo ruim, melhor que o outro com certeza! E numa companhia agradável então... Ficou ainda mais, quando no meio do filme ela se deitou em meu ombro. Me senti o máximo! Retribui fazendo uns cafunés em seus longos cabelos loiros. Assim ficamos até o final do filme que se deu próximo à nova parada em Biguaçu-SC. Lá efetuou-se mais uma troca de motorista, mas dessa vez não desci, ainda estava farto da última parada e nos aproximávamos de Florianópolis, onde Maitê iria desembarcar. Ela já estava toda agitada e começava a organizar suas coisas. Tentei ajudar em algo e logo o novo motorista já contava o carro para partirmos.
Floripa a noite
Cumprimentei-o dizendo que não estava na conta (dos passageiros) e ele respondeu que tudo bem. Assim que saímos da parada, já podíamos avistar as luzes da Ilha de Santa Catarina (foto). Comecei a apontar pela janela para Maitê que Floripa era questão de pouco tempo... No caminho até lá, ela fez questão de agradecer a companhia do gaúcho e pediu para tirar uma foto com ele. Negada, não sei por que. Ela ainda insistiu, eu seria o fotógrafo, mas ele estava irredutível. Diante da negativa do gaúcho, era minha vez. É claro que não neguei, dei-lhe um abraço apertado, ganhei um beijo no rosto e uma frase ao pé do ouvido que dizia: “Adorei a sua companhia em especial, obrigada!” Dei um sorriso e nos juntamos para a foto dentro do ônibus em movimento mesmo. O gaúcho se encarregou de ser o fotógrafo e registrou esse belo momento pela câmera dela e logo depois pela minha. Em menos de uma hora já estávamos atravessando a ponte que liga o continente à ilha. Logo encostamos na rodoviária da capital catarinense. Eram duas e meia da madrugada quando ela mais uma vez agradeceu, acenou e desceu. Dali do vidro da janela observava seu caminhar em direção ao bagageiro. Antes reencontrou seu marido, deram um enorme abraço para matar a saudade e alguns beijos. Retiraram sua “mudança” e a partir dali encaminharem seus destinos em Santa Catarina. Ainda antes de o ônibus partir, ela fez questão de acenar lá de fora para mim, mesmo estando junto a seu marido. E outra, ela é tão louca que, meio que me apresentou ao cara, me mostrando pra ele, apontando para mim e talvez dizendo: “Olha lá, aquele é o Sílvio. Foi ele que me fez companhia até aqui no ônibus.” Só me restou fazer um sinal de positivo pro cara, mesmo estando sem graça com a atitude dela. Vi que ele também ficou super sem graça com isso e assim me despedia de uma das mais importantes personagens de minha saga (foto).
O blogueiro feliz com A personagem da saga. Pelo menos esta foto eu não perdi... Uma viagem inesquecível! 
Saímos de Floripa já na alta madrugada. Quase 3 da manhã quando alcançamos novamente a BR-101 em direção ao destino final.
Depois de tanta coisa até aqui, me restou cochilar para ver se Porto Alegre chegava mais rápido. Umas duas horas depois, acordo com o ônibus parando no trevo de Tubarão-SC para alguns desembarques. Aproveitei para ir ao banheiro. Quando abri a porta me deparei com um celular carregando em cima da geladeira, que fica ao lado da porta do banheiro. Venho à mente a cena da Maitê colocando seu celular para carregar e anunciando isso para todos ali de trás na parada de Garuva. Seria dela? Pensei duas vezes antes de pegar para ver. Fui ao banheiro primeiro e na volta, não resisti. Fui ver se era de alguém que colocou ali depois dela ou se era dela mesmo. No que toco em uma das teclas, aparece a foto dela com um rapaz que suponho que seja seu marido. Tiro o telefone da tomada e levo para meu lugar. Pensei por alguns minutos no que faria com aquele aparelho que ela daria falta a qualquer momento. Resolvi mexer para ver se encontrava o número do marido dela, talvez pudesse ajudar. Fui à agenda e encontrei um nome com os dizeres “AMOR” e estava com o DDD de Floripa, talvez fosse a chance. Peguei meu telefone e mandei uma mensagem para aquele número avisando que encontrei o telefone da Maitê no ônibus e não sabia como devolver. Não esperava uma resposta rápida, pois já havia passado mais de duas horas de seu desembarque. Desencanei esperando algo depois do amanhecer. Mal deu 10 minutos que mandei, veio a resposta e da própria Maitê dizendo para eu entregar ao gaúcho que ele mandaria pelos Correios para ela. Respondi se eu mesmo poderia fazer isso. Ela respondeu que sim, que só sugeriu o gaúcho por ele estar mais perto e ficaria mais barato para ela caso mandasse a cobrar. Depois daquilo tudo que passamos, era o mínimo que poderia fazer por ela e mais uma vez agradeceu, dessa vez me chamando de “anjo”. Guardei “a sete chaves” este aparelho mais o carregador em minha mochila, que quando chegasse à Divinópolis providenciaria o envio. Daí em diante quase não vi o caminho. Acordei na Freeway, a principal rodovia de chegada a Porto Alegre com o barulho da chuva na janela. Já passava das 7 da manhã, nem quis mais cochilar, o objetivo enfim, estava próximo.
Chegada a rodoviária de porto Alegre-RS
Exatamente as 07:36 da manhã do domingo, colocava ponto final na mais extensa e mais louca viagem que fiz em 2011. Chegávamos a Porto Alegre (foto). Esperei que todos descessem primeiro. Cumprimentei e desejei sorte ao gaúcho, agradeci também ao companheiro da Itapemirim que me levou até lá. Segui a pé para o hotel, que ficava ali perto, há uns dez minutos caminhando. Frio, essa era a palavra para aquele momento em que aportava na capital gaúcha. Temperatura em 11ºC e chuva fina. Para o frio eu até que estava preparado, mas não para a chuva, não levei guarda-chuva. Ou esperava a chuva passar, coisa que não parecia acontecer assim tão rápido, ou arriscava ir debaixo dela até o hotel. Como o cansaço batia forte, a segunda opção foi a escolhida. Encarei a chuva fina e a sensação térmica bem abaixo dos 11ºC mostrados em um relógio do terminal e caminhei até o hotel. Atravessei uma passarela e uns 4 quarteirões em uma das  largas ruas de lá para enfim, chegar ao hotel para descansar. Tudo certo quanto à minha reserva, vou para meu quarto tomar aquele banho que não tomava desde a noite de sexta e “capotar”. Uma bela cama de casal, cheirosa e espaçosa me esperava. Liguei a TV em algum canal de esporte para ver o que tinha de bom enquanto me ajeitava. Nada de mais. Fui para o chuveiro e quando mais precisava de um banho super quente e demorado que sempre amo, principalmente nessas condições de clima, o danado não esquentava direito. Fiquei quase 10 minutos tentando fazer aquela água esquentar adequadamente e nada. Parei de brigar e entrei na água semi-morna as quase 8 da manhã antes que eu acabasse dormindo sem banho. Rapidinho saí de lá, não dava pra aguentar muito tempo.
Nem longe deixei de assistir o Curling
Me vesti enquanto assistia a reprise de um dos jogos do mundial de Curling, um dos esportes de inverno que mais me atrai (foto). Não dei conta de acabar de ver, desliguei a TV e a mim mesmo. Enrolei-me no edredom e já era!
Dormi horrores. Acordei às 13h e parecia que ainda era manhã. Abri a janela do quarto e vi que a chuva havia parado, mas o céu ainda estava cinzento. Arrumei-me e fui para o estádio a pé. O Beira-Rio ficava um pouco longe de onde me hospedava, mas já conhecia o caminho. Passei uma hora caminhando no meio das pessoas, sentindo o clima da cidade, suas nuances e caprichos. Ainda tava um pouco frio, 16ºC marcava um relógio próximo ao Parque da Marinha. Já estava próximo ao estádio quando comecei a ver mais pessoas com o tradicional manto colorado do Inter. Claro que estava à paisana com a camisa branca do Cruzeiro por baixo. Parada rápida no Shopping Praia de Belas para comer algo antes de chegar de vez ao estádio. Faltavam duas horas para o jogo, mas sempre chego antes para evitar problemas. Assim que saio do shopping, começo a ver um movimento mais intenso de torcedores colorados. Um verdadeiro mar vermelho em direção ao Beira-Rio. Mais 15 minutos chego ao estádio (foto).
Área externa do estádio Beira-Rio
Infiltrei-me em meio aos colorados, que são bem pacíficos, para achar a bilheteria visitante ao lado do ginásio Gigantinho. Logo ao lado, o portão 3 já me esperava. O ingresso lá também foi em conta, 30 reais. Adentro e de cara vejo do meu lado direito, parte das arquibancadas interditadas em reformas para a Copa do Mundo de 2014, diferentemente da última vez que estivera lá quando não havia começado. Ficamos atrás do gol à esquerda das cabines de TV e rádio e à nossa esquerda um mundo de gente de vermelho se formava para encher o restante do estádio. Muito pouco torcedores do Cruzeiro, pudera a distância, imagino que a maioria era de mineiros que moravam lá ou nos arredores. Chutando por alto, 150 torcedores celestes naquela tarde de domingo. E na medida em que o horário do jogo ia se aproximando, o céu ia limpando e a temperatura subindo.
Dessa vez não fiquei próximo a ninguém. No meio do “chiqueirinho” separado para nós, vibro mais uma vez com a entrada do time em campo que veio próximo a nós para a saudação.
Beira-Rio por dentro e a bola rolando na domingueira
Quatro da tarde em ponto a bola rolava no estádio Beira-Rio em Porto Alegre (foto). Inter e Cruzeiro em campo pelo Brasileirão. Os gaúchos tinham um time muito mais qualificado que aquele do Cruzeiro, que até fez um primeiro semestre bom na Libertadores só que depois da eliminação e do título mineiro não se encontrava mais. Um primeiro tempo movimentado, comandado pelo time da casa. O ataque deles era veloz e nossa defesa “batia cabeça”. O Inter criava as melhores chances de abrir o placar, mas o sempre competente Fábio salvava ali atrás. Surpreendentemente em um contra ataque raro, vem um cruzamento da direita e na falha do Muriel, goleiro do Inter, Anselmo Ramon fazia, de cabeça, 1 a 0 Cruzeiro. Vibração total minha e da galera celeste que lá estava. Seria a redenção? Começaríamos a reação no Rio Grande do Sul? Era esperar pra ver... A esperança de um bom jogo e de uma vitória empolgante fora de casa tomava conta, mas a “água no chopp” veio a jato. Andrés D´Alessandro, argentino, um dos destaques desse Inter, tem uma bola parada fenomenal e numa dessas no bico da grande área, quando todos, inclusive a defesa celeste, esperavam o cruzamento, ele mete direto pro gol encobrindo Fábio e empatando em, no máximo 5 minutos após o gol do Cruzeiro. Seria complicado, mas a confiança não abalou, mesmo vendo o Inter superior e um Cruzeiro mirrado no toque de bola e de lampejos no ataque. Um lance marcou a primeira etapa e parece que ali terminara essa parte do jogo para o Cruzeiro. Em um contra ataque, Walisson, atacante que foi o destaque celeste na Libertadores daquele ano e um dos poucos que estavam salvando a equipe do segundo semestre, divide a bola com um defensor colorado e cai. Ali ele fica e a apreensão toma conta da nossa parte da arquibancada.
Wallyson saindo de maca. Baita baixa pro time!
Recebe atendimento por um bom tempo em campo e sai de maca, substituído. Pelo jeito, era grave a contusão pela pressa que saíram de campo (foto). Não demorou muito para vir a notícia através de um de nossos torcedores que estava ouvindo pelo rádio, que ele havia fraturado o pé direito. Uma pena. Um dos pilares para uma possível recuperação, ficaria 6 meses fora dos gramados. A partir daí, o time some em campo, parece ter sentido a gravidade da lesão do companheiro e o futebol que já não era bom, torna-se pior no sul.
Como se não bastasse uma perda dessa e a queda de rendimento com o jogo ainda empatado no primeiro tempo, nosso “grande” lateral Vitor, que no Goiás jogava bem pela direita, mas no Cruzeiro sempre foi uma negação, faz um pênalti infantil em cima de Leandro Damião.
D´Alessandro deslocando Fábio e virando o jogo a favor do Colorado
D´Alessandro com toda sua categoria, bate com maestria deslocando Fábio para seu canto direito e a bola “morrendo” mansa no esquerdo. O Inter virava para 2 a 1 (foto). Era nítido o abatimento dos jogadores em campo, imagine o meu na arquibancada. Intervalo passou e Papai Joel fazia suas modificações para melhorar o rendimento para a etapa final. Bola rolando novamente para uma segunda etapa que parecia ser igual à primeira, o Inter em cima, mas eu acreditando num empate rápido para tentar algo melhor mais a frente. Que nada. Acabo de pensar nisso e num cruzamento da direita, Leandro Damião, centroavante do Inter, se antecipa a Gil e marca o terceiro de cabeça. Não era nem 10 minutos do segundo tempo e essa vantagem seria difícil de ser revertida diante do bom futebol jogado pelo time gaúcho. Festa vermelha no Beira-Rio, colorados cantando alto e só nos cabia silenciar e acompanhar o restante do jogo para ver até onde iria a incompetência celeste. A partir daí, o Inter “puxou o freio de mão”, só administrou o resultado que era muito favorável e controlado ante a “lezeira” do Cruzeiro. O segundo tempo quase que todo se arrastou até o final, o Cruzeiro tentava sem qualidade, mal ameaçava a meta de Muriel e o Inter tocando a bola de um lado para o outro esperando o apito final. Num súbito alento, o Cruzeiro teve um escanteio pelo lado direito de seu ataque, ali pertinho de nós. Roger coloca na linha da pequena área onde estava Leandro Guerreiro, que subiu soberano entre os marcadores e com sua cabeleira venceu a Muriel, diminuindo o placar. 3 a 2 Inter. Não adiantava muita coisa, já se passavam dos 40 minutos. Até esbocei uma empolgação pela busca do empate, em vão. O tempo passou e mais nenhuma chance foi criada. Final de partida. Mais uma derrota no meu lombo e a sina do Cruzeiro naquele campeonato só aumentava.
Ingresso desse jogo


Não havia tempo para lamentações, meu vôo de volta saia as 20:38 do Aeroporto Salgado Filho, que ficava do outro lado da cidade. Rapidamente refiz o caminho de volta ao hotel. Lá tomei outro banho quase frio e rearrumei a mochila para voltar a BH. Acertei minha estadia e pedi para chamar um táxi. Nisso já eram quase 8 da noite, o táxi demorou um pouco, mas chegou. Pedi que fosse o mais rápido possível para o aeroporto e assim o fez. Em menos de quinze minutos já estava lá para fazer o check-in e embarcar. A fila estava grande e por sorte o pessoal da Gol estava passando os passageiros para BH a frente dos demais. Tudo conferido, dirigi-me ao portão de embarque. Fiquei em dúvida e quando fui perguntar a uma funcionária da Infraero se era aquele portão mesmo, veio alguém e bateu-me no ombro direito dizendo: “BH? É aqui mesmo!” Era simplesmente o lateral esquerdo do Cruzeiro, Gilberto. Agradeci e entrei junto a ele. Passei pelo detector de metais sem problema e quando chego a fila de embarque, teria a enorme surpresa e coincidência de ver todos os jogadores do Cruzeiro na mesma fila, ou seja, teria o mesmo privilégio do ano anterior de viajar junto a eles até BH. Se tivesse programado, não teria saído tão perfeito. Muita gente que gosta do esporte, sequer teve a oportunidade de chegar perto dos jogadores do seu time do coração e eu teria a segunda chance de poder estar no mesmo vôo que eles. Estava em êxtase!
Gilberto Marcos. Amigo fotógrafo
Fiquei no aguardo da liberação do embarque quietinho, só admirando a postura dos caras numa situação rotineiras para eles, mas especial para mim. E outra coincidência acontece nesse meio tempo antes do embarque: um pouco mais a frente na fila encontro um colega fotógrafo divinopolitano, Gilberto também (foto). Mexi com ele e fui cumprimentá-lo, estava acompanhado de sua esposa. Com enorme entusiasmo, ele também ficou surpreso e satisfeito em me ver ali, tão longe de nossa cidade. Disse que estava em lua-de-mel em Gramado e ficou espantado com o motivo de eu estar ali. Trocamos figurinhas enquanto não embarcávamos, sua poltrona era bem mais a frente da aeronave que a minha. Então combinamos de nos reencontrar em Confins. Ele estava apreensivo quanto ao horário de chegada em BH, pois não sabia se daria tempo de pegar o último ônibus para Divinópolis ou teria de pagar um hotel por lá até o dia seguinte. De imediato disse-lhe que meu carro estava em BH e que poderia ir comigo se quisesse. Topou na hora!
Assim embarcamos, despedi-me momentaneamente dele e segui para minha poltrona que era a 16-A na janela, pouco atrás da asa. No caminho, vi Walisson já embarcado e com a perna engessada. Joel Santana estava com cara de poucos amigos e os outros jogadores se ajeitando em outros lugares. Sentei-me e logo atrás de mim veio o Gilberto lateral. Fiquei olhando e para minha surpresa ele se senta ao meu lado. Sem pestanejar, digo-lhe: “Que coincidência. Além de me mostrar o caminho pro embarque, vou ter o prazer de viajar ao seu lado!” Ele logo responde: “Que isso. Sou um cara qualquer como você.” Feliz de estar conversando com alguém do “naipe” dele, retruco: “É sério. Para um amante do futebol como eu, poder sentar ao seu lado e conversar assim é um prêmio. Um privilégio para pouco!” Ele agradeceu e pediu licença para falar com sua filha que estava no Rio por telefone antes que eles mandassem desligá-lo. Além de simpático e humilde, o cara era educado a ponto de pedir licença para cortar uma conversa com alguém que nem conhecia. Na primeira vez que viajei junto aos jogadores, pude tietá-los, tirar fotos, cumprimentar, mas a ponto de um vir e conversar numa boa comigo, nunca imaginaria. Nós meros torcedores, sempre achamos que eles são marrentos ou metidos a ponto de não querer papo e ali o Gilberto (foto) ganhava ainda mais admiração de minha parte.
Gilberto lateral esquerdo do time celeste
O avião decola com um pouco de atraso, invadimos as trevas nas duas horas seguintes até BH. Achei que Gilberto nem ia dar bola pra mim mais, ia colocar seus “fonões” de ouvido ou dormir, mas mal estabilizamos no ar, ele voltou a falar comigo: “Você é daqui do sul mesmo?” Respondi-lhe: “Não. Sou de Minas e torcedor do Cruzeiro. Vim pra cá só pra ver vocês jogarem. Agora pensa no pessoal de Divinópolis que não vai acreditar que estou conversando com um jogador de seleção, que jogou Copa...” Espantado, disse: “Cara, você veio de Divinópolis até Porto Alegre só pra nos ver e na fase que estamos? Isso que é torcedor de verdade, o resto é bobagem! Deixe-me ver se eu acho aqui, mas acho que não vou ter, mas se tivesse uma camisa de jogo aqui agora, daria ela pra você sem pensar duas vezes.” E nossa conversa continuava, respondi: “Que isso, não precisa. Só o prazer de estar aqui do seu lado e trocando uma ideia como se fossemos amigos, já valeu minha viagem. E não foi só aqui que vim, estou indo a todos os jogos de vocês fora de Minas para conhecer os estádios e ter o prazer de acompanhar de perto meu time como nunca havia tido oportunidade. Aliás, vou precisar de uma foto com você quando descermos para comprovar para meus amigos que eu não estava de papo.” Ele topou imediatamente e se levantou dizendo que ia ali à parte da frente e já voltava. Enquanto isso, aproveitei a chance de estar voando a noite pela primeira vez e encostei a cabeça na janela para tentar ver algumas cidades lá de cima. E consegui! É incrível, impressionante como não somos nada aqui embaixo. Um aglomerado de luzes formando cidades como Santos-SP que consegui identificar pelo formato de sua orla, que estava com luminosidade maior que o restante da cidade. Outrora via uma luz solitária que se movia no meio do escuro, era um carro na estrada. Tudo muito louco. Não demorou e vi Gilberto voltando para o seu lugar. Ainda no corredor, ele vinha caminhando e tirando seu agasalho, ficando somente com a camisa de viagem. Imaginei que estivesse se sentindo incomodado, já que não estava tão frio lá dentro. Que nada! Mais uma e a maior de todas as surpresas viria com esse caminhar. Ao se sentar de volta, virou-se para mim com o agasalho em mãos e embolado, dizendo: “Toma. Esse é seu!
Lindo agasalho que me foi presenteado
É o mínimo que posso fazer pra retribuir o que você está fazendo por nós. E te prometo, vamos sair dessa fase!” Arregalei os olhos, peguei o agasalho e com os olhos marejados disse: “Cara, não tenho palavras para agradecer. Já estava feliz de estar aqui junto a vocês, de poder conversar assim contigo e agora eu ganho esse presente do meu time (foto). É demais pra esse coração azul! E pode ter certeza que daqui duas semanas contra o Atlético-PR, estarei na Arena da Baixada com ele no corpo, torcendo ainda mais por vocês em campo.” Gilberto sorriu e disse se eu não me importava de ele ler um pouco até a chegada. Evidente que não me importei, depois de tudo, eu era só sorriso.
Tentei ouvir música olhando a janela, mas não consegui. Tirei os fones e logo começávamos o procedimento de descida em Confins. Dez minutos de uma descida leve e as 22:40 pousamos em segurança. Esperei o Gilberto pegar suas coisas, para depois eu pegar minha mochila no compartimento de bagagem de mão sobre nossas cabeças e vagarosamente fomos saindo do avião para o saguão. No corredor de acesso, Gilberto se vira para mim e diz: “E aí, a câmera ta pronta? Vamos à foto?” Respondi positivamente, já com ela em mãos e ele: “ Beleza, agora vamos ver quem pode tirar pra nós...Hmm, ali o Rafael. Ô Rafa, tira uma foto minha com o rapaz aqui, essa é especial.” Nosso goleiro reserva serviu de fotógrafo e assim consegui a prova que precisava de tudo que vivi nessa viagem (foto).
Agradeci ao Gilberto novamente por tudo e em especial pelo presente. Segui meu rumo em direção ao saguão onde reencontrei o meu amigo Gilberto de Divinópolis. Ele me esperou para seguirmos juntos em direção ao ônibus da Unir que nos levaria de volta à BH. Quase o perdemos, chegamos em cima da hora, mas entramos. Por volta de 23:30 descemos na porta do Aeroporto da Pampulha, por estar mais perto da garagem da Gontijo, onde deixei meu carro. De lá “rachamos” um táxi. No caminho contamos o que de mais importante havia acontecido nesse meio tempo que não nos víamos e em nem dez minutos estávamos na Gontijo. O portão do estacionamento estava trancado, provavelmente devido ao avançar da hora, mas ainda bem que os motoristas já haviam me ensinado a “manha” quando isso acontecesse. A chave fica com o segurança das bombas de combustível. Foi fácil, o cara parecia estar quase dormindo, pedi e ele me deu. Abri, peguei o carro, guardei as malas do Gilberto e de sua esposa que me agradeceram mais uma vez a disponibilidade da carona e a chance de chegar em casa antes do esperado. Devolvi as chaves com o portão devidamente trancado. Gilberto queria até me pagar uma quantia que nem sei quanto era para ajudar nas despesas, neguei.
Não tinha porque não dar carona a eles. Partimos de BH pouco depois da meia-noite. A estrada estava tranquila e o carro rendia bem. Conversamos mais um pouco, Gilberto foi à frente comigo e sua esposa sozinha atrás. Em um dado momento, Gilberto não resistiu e caiu no sono. Virou pra mim e perguntou se eu não importava. Evidentemente disse que não e os dois passaram boa parte do trecho “apagados”. Gilberto chegou até a roncar! Era quase 2 da manhã quando chegamos a Divinópolis. Mal passamos a ponte do Rio Pará e Gilberto despertou, não viu nem o pedágio. Logo, ele já me falava para eu deixá-los no Bom Pastor que de lá pegaria um táxi até em casa. Mais uma vez neguei. Se eu os trouxe até aqui, não podia levá-los até suas casas? Contaram-me que moravam no Belo Vale, passei direto pela rodovia e rapidamente deixei-os sem nenhum problema. Gilberto insistiu em me dar uma grana, afinal não a gastaram com hotel em BH. Não aceitei e disse que foi um prazer reencontrá-lo e esse prazer de amigo que paga a carona. Abracei os dois e fui embora. Às 2:30 da manhã chego em casa. Mãe desperta com o barulho do carro e do portão do prédio sendo aberto. Reencontro-a na garagem de casa, desço todo empolgado com o presente e com tudo que aconteceu, mas minha mãe não deu à mínima, talvez devido ao sono... Vou pra casa e antes de dormir fico admirando ainda mais o agasalho. Minha mãe, nos dias seguintes gostou mais do agasalho do que eu por causa do perfume do “negão” e custou a lavá-lo. Durmo bem e fui trabalhar no dia seguinte à tarde. Sob inúmeros pedidos para desistir, um deles do Charles, marido da Ana Paula que trabalhava na banca de revista, volto a minha rotina. Ele chegou a me oferecer 100 Reais para parar com isso ficando com medo do resultado no fim do campeonato, o rebaixamento à Série B. Claro que neguei, pois aquilo era um sonho se realizando, independente do resultado. Disse isso abertamente, mesmo se o Cruzeiro fosse rebaixado, não me sentiria culpado e escreveria tudo isso sem nenhum ressentimento. Agora era só aguardar o próximo adversário, a próxima viagem, a próxima surpresa, a próxima realização.

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