sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O COMEÇO DA LOUCURA

Voltando ao paraíso com o pé esquerdo...



A ansiedade já tomava conta desta pessoa quando a possibilidade de concretizar uma ideia, que muitos diziam ser maluca, estava próxima. Em Março de 2011 eu recebi a boa notícia de que teria um ótimo novo companheiro de trabalho, na bilheteria da Gontijo em Divinópolis. Apresentei-lhe os planos e ele topou me ajudar a realizar este sonho. Diante disto, comecei a planejar a primeira viagem que só seria em Maio para Florianópolis-SC. Comprei as passagens de ida e volta com antecedência, aproveitando uma promoção que estava bem vantajosa: de R$ 120 por R$ 40.

O tempo passou. Demorou, mas passou. Chegou o tão aguardado mês de Maio para começar esta saga que a princípio era ir a todos os jogos do Cruzeiro fora de casa no Campeonato Brasileiro. 

Para assistir o jogo que seria num domingo em Floripa, saí na sexta a noite de Divinópolis num ônibus da Gontijo para Marília-SP. Sim, faria um caminho alternativo para não pagar este primeiro trecho e na torcida para que viesse um motorista conhecido para ir proseando.
Sexta-feira, 20 de Maio. Trabalhei pela manhã e fiz minha mochila para esta viagem inicial. Não imaginava o trabalho que ela me daria mais tarde.
Grande Paulo Becker. Um dos idealizadores!
À noite estava pronto para embarcar, cheguei um pouco antes e fiquei conversando com o meu amigo e mais novo companheiro Paulinho. (FOTO)

Às sextas os ônibus sempre atrasam a chegar aqui e dessa vez não foi diferente. O primeiro ônibus que ia para Bauru-SP chegou e com um grande motorista no comando, Dagmar. Gente mais que boa, sempre fez questão de mim. Mas essa linha não passava em Marília, provavelmente não daria para eu ir com ele. Ao longo da parada aqui em Divinópolis, ele me convenceu a ir nesse carro até Ribeirão Preto-SP (que é a última cidade comum dos dois ônibus) e lá eu trocaria de ônibus, passando para o que ia para Marília, que estava logo atrás.
Interior de um ônibus rodoviário.
E como valeu a pena esta escolha! Subi e deixei minha mochila no porta-embrulho (compartimento para bagagem acima da cabeça do passageiro). 
(FOTO)
Começamos a seguir viagem com uma conversa animada na cabine, já que sempre tínhamos pouquíssimo tempo das vezes que nos encontrávamos.Viagem boa, nem vimos o tempo passar e chegamos rapidinho na parada de Itaú de Minas pra um lanchinho na madruga. Umas 3 e meia da manhã chegamos a Ribeirão.
Ponto de Apoio em Rib.Preto-SP
Primeiro, ele faz uma parada maior, para troca de motorista no Posto Gavião. 
(FOTO) 
Desci e fui cumprimentar os companheiros de lá. Entre eles alguns motoristas já conhecidos como o Adão e o Mauro. O último assumiria este carro que seguiria para Bauru. Em mais ou menos meia hora, estava tudo pronto para o ônibus que eu estava seguir. O que ia para Marília havia acabado de chegar, então ainda demoraria um tempinho. Papo vai e papo vem, Dagmar estava pronto para ir descansar quando me pergunta se eu havia tirado minha mochila lá do compartimento antes do Mauro seguir viagem... Pensa na quase parada cardíaca que tive ao saber que tinha esquecido a mochila no ônibus que havia partido? Como iria a Florianópolis só com a roupa do corpo, que era meu uniforme de trabalho? Fiquei um pouco desesperado, pois esperei tanto por esta viagem e poderia acabar assim?! Os companheiros que ficaram me ajudaram a tentar resgatá-la, mas ninguém tinha o telefone do Mauro. Até que surge o Daniel, auxiliar de tráfego. Ele chegava de seu intervalo e tinha o tal número do motorista que seguiu. Com muito custo, conseguimos localizá-lo na rodoviária de Ribeirão, segunda parada nesta cidade. Foi aí que conseguimos explicar a situação pra ele. Em tempo, deixou minha mochila com um funcionário do terminal até eu passar lá no outro ônibus. Respirei aliviado e agradeci bastante ao companheiro Daniel por salvar minha viagem...
Pós-susto, segui viagem. Como passei a noite toda em claro, mal entrei no ônibus que seguia para Marília e apaguei, literalmente. Acordei com umas trepidações próximo a parada no Posto Gigantão, quase chegando em meu destino primário. Tomei um café esperto junto com o motorista e seguimos para a rodoviária. Umas 8 e meia da manhã chegamos lá.
Marília-SP
Desci agradecendo ao motorista pela viagem. Como o outro ônibus que pegaria tinha previsão de passar só às 10:15, andei um pouco ali dentro antes de procurar a bilheteria da Itapemirim e retirar meu bilhete reservado pela internet com antecedência. Após assistir um pouco de Fórmula 1 na TV, resolvi ir à bilheteria pra ficar livre de tudo e ficar só na espera mesmo. Para quem estava aliviado e feliz da vida por continuar viagem com todos os seus pertences, chego ao guichê da Viação Itapemirim com o comprovante da compra em mãos. Dou um bom dia sorridente para o atendente (imagina se fosse A atendente!) e o aviso que comprei pelo site da empresa. Ele para, olha, pensa, coça a cabeça, mexe no computador e fala que não tem aquele carro para aquele dia. Minha cara já muda e pergunto se ele está brincando. Ele disse que não e que não estava entendendo como eu comprei uma passagem para um dia que não havia ônibus da empresa para Florianópolis. Eu com cara de bolacha e ele com cara de pastel. Levantou-se, pegou o telefone e falou algumas coisas. Voltei a ficar apreensivo com mais um possível fim precoce de minha viagem. Ao mesmo tempo estava confiante numa alternativa para solucionar isso, afinal não era um erro meu. Ele voltou com a cara um pouco mais positiva, o que já me aliviava. Disse que na época que eu comprei a passagem havia ônibus da Itapemirim pra lá todos os dias e que houve uma alteração há questão de 15 dias passando este horário a ser revezado com outra empresa, a Real Expresso. Pediu para que eu me dirigisse ao guichê desta empresa para resolver o problema. Ele me acompanhou e explicou o ocorrido para o atendente da Real. Este consultou seu sistema e achou minha passagem. Estava lá, com meu nome e tudo na poltrona que comprei. Ou seja, após a alteração, este dia era da Real Expresso. Mas por eu ter comprado no site da Itapemirim, esta passagem teria que ser da mesma, porém com uma autorização para eu embarcar no ônibus da Real. (FOTO)

Passagem da discórdia.

Mais um probleminha resolvido, fiquei imaginando se viria mais alguma coisa para testar-me. Nesse momento, parei para pensar se realmente queria fazer tudo aquilo que eu imaginei fazer... Aguardei mais um pouco e o “busú” da Real vindo Brasília aparece para minha enorme alegria! Embarquei e seguimos rumo a Floripa que chegaria após o sábado todinho... Músicas e mais músicas alegraram minha viagem até pararmos para almoçar em Santo Antônio da Platina, já no Paraná. Quase uma hora ali parado, comi uma bolachinhas e fomos para mais um pouco de ótimas estradas no sul do país.
Rodovia PR-151 em Castro/Paraná
Umas 16hs paramos, agora, para um lanchinho rápido em Carambeí-PR. Tarde caindo e no começo da noite chegamos à linda capital paranaense, Curitiba.
Após essa parada não resisti e caí sono. Acordei em Garuva-SC em mais uma parada rápida. Desci meio cambaleante para comer algo e me deparei com um frio pra lá de congelante para um mineiro nada acostumado com este clima do sul... Mais um cochilinho ao som da Jovem Pan Itajaí, que já pegava no trecho.
Não perderia a oportunidade de ouvir a rádio número 1 do Brasil por onde quer que eu passe. Faltando pouco para chegar, umas meia noite e meia, paramos em Biguaçu-SC para troca de motorista e mais um lanche. Daí em diante não consegui dormir mais e por volta de 2:15 da manhã vislumbro a iluminada e maravilhosa Ilha de Santa Catarina. Alegria estampada em meu olhar ao rever este que é, sem dúvida, um dos lugares mais lindos e gostosos que já visitei. 
Atravessamos a ponte que liga o continente a ilha e logo chegamos ao terminal Rita Maria, a rodoviária de Florianópolis. Feliz e cansado, já era domingo, dia do jogo. Hotel pertinho dali, a pé mesmo andei nem 5 minutos. Chegando lá, estava doido pra deitar, pois havia quase 2 dias que não sabia o que era dormir numa cama. Apresento-me na recepção dizendo que havia feito uma reserva. Lá vai o recepcionista fazer a mesma cara do bilheteiro da Itapemirim em Marília. Morri de medo, porque era madrugada. Procurou, procurou e enfim achou minha reserva para mais um alívio meu. Ele alegou que eu tinha feito a reserva para o domingo, mas o sistema deles marcam reservas para o dia anterior até as 6 da manhã, então minha reserva estava no sábado e não no domingo.

Ufa! Enfim uma cama bem confortável, um bom chuveiro quente e muita coberta pra combater o frio que arrepiava esta pessoa. Percebo que dormi “horrores” quando, entre as cortinas, o domingo clareava todo o quarto. Estava no 11º andar daquele hotel, já eram quase 11 da manhã.
Hotel que me hospedei (acima)
      e a vista que tinha do quarto (abaixo)
Consequentemente já havia perdido o provável café farto do hotel, mas estava bem descansado. Primeira coisa que fiz quando levantei foi observar por um bom tempo a bela vista que tinha para a ponte e a baía (FOTOS)
Com certeza, uma das mais belas que já pude ver! Nem acreditava que estava tendo a oportunidade de estar num lugar como aquele. Desci para contemplar de perto... Para evitar outro problema com a passagem de volta, primeiramente voltei à rodoviária. Procurei o pessoal da Itapemirim para providenciar a troca da passagem pela
da Real Expresso ou a autorização para embarcar com a passagem da Mirim como foi na ida. Fui, expliquei e dessa vez foi mais tranquilo. O encarregado da Mirim me levou até o guichê da Real, fizeram a troca e para a volta já estava com a passagem certa em mãos e não teria problemas, afinal o embarque seria na madrugada e não teria suporte nenhum se houvessem transtornos...

Passagem de volta



Isso feito, fui andar pela Avenida Beira Mar Norte, sentir o vento na cara e procurar um lugar para comer. Passei pela ponte Hercílio Luz, um dos cartões postais da capital barriga-verde. Por ali achei um Habib´s aberto, hora de mandar um sanduba pra dentro. Demorei a escolher. Usando a tática de não acreditar nas imagens ilustrativas dessas lanchonetes, escolhi o tal do Beirute. Não demorou muito e ele chegou numa caixa de tamanho médio, mas não me iludi. Sentei-me numa varandinha do lado de fora, tomando um ventinho e admirando o visual espetacular a minha frente. (FOTO)
Minha ilusão foi por água abaixo quando abri a caixa e vi um mega sanduíche me esperando. Pela primeira vez vi se concretizar uma propaganda desses fastfood. Bom, não reclamei, já que não havia tomado café, isso seria meu almoço. Mandei brasa junto a uma bela cervejinha. Já batia 2 da tarde, jogo marcado para as 4 no estádio Orlando Scarpelli que fica no continente. A ponte que faz a ligação com a ilha não permite a passagem de pedestres, senão iria a pé mesmo para o campo. Chamei um táxi e rumei ao estádio do Figueirense. Conversei com o taxista que era torcedor do Figueira e logo chegamos ao destino. No fim, perguntei a ele se poderia me passar um cartão dele para chamá-lo na volta, depois do jogo. Ele me disse que não precisaria, pois a região fica cheia de táxi em dia de jogo e que eu conseguiria com facilidade. Veremos...
Rodei em volta do estádio à procura da bilheteria de visitante. Alguns cambistas me abordaram querendo vender um ingresso supostamente mais barato que na bilheteria, mas achavam que eu era torcedor do Figueirense. Adotei uma tática para evitar qualquer tipo de entrevero com um torcedor local, ir a paisano. Somente dentro do estádio coloquei minha camisa do Cruzeiro e abri minha bandeira. De frente a bilheteria certa, já me surpreendo com o precinho do ingresso para esta primeira rodada do certame: 50 reais! Como já tava lá, como não pagar? Entrei ao estádio que é acanhado, mas bem arrumado e organizado. (FOTOS)


Sentei e esperei o que viria a acontecer. Alguns cruzeirenses chegaram e estava maior do que eu pensava. O sol estava um pouco forte e resolvi descer as arquibancadas para comprar um refrigerante no bar. No caminho, vi uma bela mulher com o microfone da rádio Band FM. Uma loira linda entre a “homaiada” que cobre um clube de futebol em campo. Parei para admirá-la. Ali perto, estava o Álvaro Damião, repórter da Rádio Itatiaia entrevistando um torcedor do Cruzeiro pela grade do alambrado. Paro para ver e ele gesticula me chamando a falar. Topei. Já veio me perguntar se eu era de Santa Catarina mesmo ou se vim de Minas. Eu logo respondi que vim de Divinópolis e de ônibus com mais de 20 horas de estrada só para ver o Cruzeiro. Mesmo experiente, surpreendeu-se com minha resposta. Mandei meu alô para Divinópolis e ao Alberto Rodrigues que narraria aquele jogo. Foi muito legal falar ao microfone mais forte no que diz respeito ao futebol em Minas. Depois de tanta coisa, enfim bola rolando para o Campeonato Brasileiro de 2011! E eu não conseguia tirar o olho da “loira da Band”, que posteriormente descobriria seu nome: Simone Malagoli. (FOTOS)

 Ah, o jogo? Tava bem morno. O Cruzeiro foi um pouco superior no primeiro tempo, mas desperdiçou algumas chances que poderiam valer a vitória no fim. O segundo tempo mal começou e num escanteio para o Figueirense, Fábio soca a bola contra a cabeça do Marquinhos Paraná e entra. Figueira 1 a 0.
E assim o time catarinense segurou o resultado durante todo o segundo tempo, por mais que o Cruzeiro não tenha feito muita pressão e perdido mais um bocado de gols...
Fim de jogo e eu já voltava para casa com uma derrota. Não sem antes aparecer mais um probleminha a se resolver... Esperei um pouco para sair do estádio. Beleza, ao chegar à rua, começa minha caçada por um táxi, que segundo o taxista que me trouxe, seria fácil arrumar. Olhava de um lado, de outro, e nada. Comecei a me desesperar. Não adiantaria. Parei em uma esquina e pensei um pouco. Fui a um orelhão onde havia pregado um número de moto táxi. Liguei e o número não era mais desse serviço, caiu na cidade de Tubarão-SC. Pensei em ligar para o hotel, para que eles chamassem o táxi para mim, só que me deparei sem este número. Liguei no 102 e pedi o número do hotel. Passaram-me um número que ninguém atendia... Larguei mão das ligações e saí andando entre os torcedores rivais. Uns até pareciam saber que eu era torcedor do Cruzeiro, por mais que eu não estivesse com a camisa. Olhavam-me de um jeito esquisito... Passei a selecionar quem eu poderia perguntar sobre um ponto de táxi. Uns 5 minutos rodeando o estádio, encontro um rapaz com uma criança nos ombros. Seria esse. O abordei e foi muito educado ao me responder que estava perto de um ponto, a 2 quarteirões dali. Andei como ele me orientou e finalmente encontrei o táxi que me levaria de volta ao hotel.
Eram quase 8 da noite quando cheguei ao hotel. Fiquei assistindo a programas esportivos até rever os melhores momentos do jogo que fui. Tirei um cochilão e a 01:30 da manhã o celular despertou-me. Foi só arrumar a mochila, pagar a conta e ir embora pegar o ônibus para Marília às 02:15. Um pequeno atraso e lá estava eu de volta ao ônibus da Real Expresso. (FOTO)
Ônibus do trecho Marilia/Floripa/Marilia

Voltei pelo mesmo caminho, agora sem problemas. A viagem rendeu e às 4 e meia da tarde cheguei à Marília. O ônibus da Gontijo vindo de Campo Grande-MS, que me levaria de volta a Divinópolis, só passaria às 7 e meia da noite. Não sabia o que fazer até lá. Fui à bilheteria da empresa e comecei a conversar com o companheiro Douglas, que logo me convidou a entrar e ficar ali proseando com ele. Assim o tempo passou voando, ele me apresentou o pessoal das outras empresas, inclusive o atendente da Real Expresso que me atendeu na ida com aquele problema na passagem. O trem já havia virado piada e estávamos dando altas risadas. Contou-me a história da construção do terminal de Marília, que é arredondado e tem um “pico” no teto como se fosse um chapéu mexicano. Mas que a intenção era para que parecesse uma nave espacial... Vai entender. Sei que é bem exótica. (FOTO)
Rodoviária Chapéu mexicano / Disco voador
Chegada a hora. Ônibus da Gontijo encostado e um motorista conhecido na parada: José Jorge. Doido de tudo! Subi e ele quis que eu fosse na cabine com ele, até aí tudo bem. Mal saímos da cidade, ele começou a fazer 115 Km/h, sendo que o limite permitido pela empresa é de 90 Km/h. Passei a me preocupar, felizmente nada aconteceu. Chegamos bem em Ribeirão, quase 1 da manhã. Troca de motorista, veio outro conhecido, o Cláudio. Só que dessa vez, o trecho até Divinópolis iria cochilando lá dentro, na poltrona, confortável. Não aguentei e assim que saímos de Passos, resolvi levantar e ir junto ao Cláudio na cabine. Pouco antes de passarmos por Formiga, percebi o ônibus mais devagar e algumas vezes beirando a linha da direita da estrada. Como olhava para frente, comecei a estranhar. Passei a olhar para o Cláudio que, aparentava cansaço, piscava muito e com o olho pequeno. Tive que intensificar a conversa para não acontecer algo pior conosco.
Às 7 e meia da manhã chegamos sãos a Divinópolis. Um alívio para esta pessoa que ao se despedir do colega motorista diz: “Vai com Deus nesse restinho até BH, mas capricha no café aqui primeiro hein!” Assim, depois de muitas reviravoltas e acontecimentos inusitados, cumpro a primeira parte de meus planos.
Muita coisa viria pela frente!

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